O ex-governador Ciro Gomes é um dos políticos mais difíceis de entrevistar: inteligente, rápido e usa argumentos originais. Muitas vezes usa números e estatísticas cuja origem a maioria dos jornalistas desconhece, o que dificulta a réplica dos profissionais de imprensa em uma entrevista. Além disso, não é previsível, pois sua lógica navega em um território que se alimenta de fundamentos que são independentes da ideologia.
Por isso, Ciro não se encaixa em um estereótipo de direita, de esquerda ou mesmo de centro. Ciro é Ciro e atira confortavelmente em Luiz Inácio Lula da Silva ou em Jair Bolsonaro. Por isso, não é surpresa que ele, na última pesquisa Real Time Big Data, é o único a tirar votos da esquerda e da direita.
Vamos aos números. No primeiro cenário avaliado pelo instituto (primeiro turno) Lula lidera com 40%, com Flávio Bolsonaro em segundo lugar (34%). Em terceiro lugar, temos Ronaldo Caiado, com 5%. Quando adicionamos Ciro Gomes à equação, ele aparece empatado em terceiro lugar com Caiado e Romeu Zema, todos com 4%. E de onde vieram esses quatro pontos percentuais? Dois de Lula (que passa a ter 38%), um de Flávio (que cai para 33%) e um de Caiado (tem sua intenção de voto reduzida para 4%).
Ciro também herda praticamente todo o eleitorado de oposição em um hipotético segundo turno. Na simulação feita, Flávio está com 44% e Lula com 43%; Com Ciro no páreo, o ex-governador crava 43%, o mesmo índice de Lula. Mas os outros oposicionistas (menos Renan Santos) também ficam em situação de empate técnico quando concorrem com o presidente, embora com números menores que os de Ciro.
A independência do ex-governador o torna livre para criticar qualquer grupo político, mas essa mesma característica já o colocou em situações de desgaste. Ele não costuma medir palavras e reage com impaciência em entrevistas coletivas ou em debates. Essa postura rende momentos de brilho, pois transmite autenticidade e domínio do assunto, mas também produz respostas atravessadas que afastam parte do eleitorado.
Há episódios em que essa impaciência custou caro. Em campanhas anteriores, entrevistas tensas e declarações ríspidas acabaram ganhando mais espaço do que suas propostas. A imagem de alguém que se irrita com facilidade alimentou a percepção de que ele teria dificuldade para construir alianças amplas, algo essencial em disputas nacionais. Mesmo quando suas críticas tinham ocasionalmente fundamento, o tom adotado acabava se sobrepondo ao conteúdo, reforçando a ideia de que ele não sabe se controlar.
Esse lado mais duro convive com sua capacidade de dialogar com públicos distintos. Ciro transita entre temas econômicos complexos e questões sociais com desenvoltura, o que explica por que atrai eleitores de perfis tão diferentes. Ainda assim, sua franqueza, que é uma virtude para muitos, também funciona como obstáculo em momentos decisivos. Em um ambiente político marcado por cálculo e autocontrole, sua impaciência já lhe tirou votos e acabou criando espaço para adversários.
Por enquanto, ele se mantém como candidato ao governo do Ceará. Sua ausência na campanha presidencial vai deixar o cenário mais previsível e polarizado. Uma pena, pois os eleitores brasileiros se divertiriam muito mais ele estivesse na corrida ao Planalto. Especialmente nos debates televisivos. Quem sabe em 2030?