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Boris Casoy e seu aviãozinho de papel

Aluizio Falcão Filho
7 de junho de 2026

Há várias lições de vida escondidas em textos diversos, trechos de filmes, letras de música ou até em entrevistas. Na semana passada, por exemplo, estava lendo um pingue-pongue publicado na “Folha de S. Paulo” com o âncora Boris Casoy, de autoria do repórter Naief Haddad. Fui atraído pelo título da matéria: “Não pretendo me aposentar, diz jornalista de 85 anos”. Casoy que vinha apresentando um vídeo diário de meia hora no YouTube, acaba de ser contratado pelo SBT. Seu programa jornalístico estreou na emissora na última segunda-feira.

Mas há uma frase dita por ele que me chamou a atenção, quando comenta sua atuação como editor-chefe da “Folha”: “Tive de fazer o jornal atravessar o Rubicão, passando incólume pelo regime militar. Ao lado da minha porta de entrada, aqui em casa, tenho uma gravura com um mar revolto e, sobre ele, um avião de papel. Eu me sentia pilotando esse avião e acho que consegui aterrissar bem”.

Essa imagem, que ilustra o presente artigo (com a inevitável ajuda de uma ferramenta de Inteligência Artificial), pode ser utilizada como metáfora para a vida de muitas pessoas – e, em especial, para o dia a dia dos empreendedores.

Como todos sabem, não é fácil tocar o próprio negócio. Um empreendimento deixa seu dono em estado de alerta permanente, especialmente quando sua aeronave pode sofrer a ação de variáveis da natureza (os movimentos do mercado) ou de outros aparelhos e seres voadores (a concorrência).

Um vento muito forte pode levar à queda. Mas, dependendo de seu ângulo de incidência, pode fazer o aviãozinho voar mais alto. Uma nave inimiga pode abater a sua ou fazer o empreendedor voar baixo para sobreviver; ou, então, um movimento precipitado pode fazer o oponente perder o próprio controle.

Nosso equilíbrio, tanto na vida como nos negócios, é precário. Sofremos a ação de diversas forças e nem sempre reagimos da melhor forma possível. Há momentos em que precisamos de sangue frio e nos exaltamos (ou nos deprimimos); em outras ocasiões, temos de reagir com força e tentamos ser racionais. Mas existem ocasiões em que tudo se encaixa, como se estivéssemos seguindo um roteiro no qual sabemos os acontecimentos futuros.

Há momentos em que dirigimos nosso avião de papel. Em outros, somos levados pela ação dos ventos e acabamos sendo passageiros, não pilotos. O problema é que, no afã do momento, não sabemos ao certo se estamos comandando nossa aeronave ou simplesmente reagindo aos efeitos na natureza.

Nessas horas, é melhor dosar a estamina e a adrenalina dos guerreiros com a serenidade dos estrategistas. Mas como fazer isso?

Talvez a melhor forma de equilibrar essas forças seja reconhecer que o controle absoluto é uma ilusão. O empreendedor, assim como o piloto do avião de papel, precisa aprender a ler os ventos e ajustar o rumo conforme as circunstâncias. Isso exige sensibilidade para perceber o momento certo de agir e humildade para aceitar que nem tudo depende de sua vontade. A serenidade nasce quando se entende que o movimento do ar, por mais imprevisível que seja, pode ser aproveitado para avançar.

A vida profissional e pessoal se assemelha a esse voo sobre o mar revolto: há turbulências, calmarias e mudanças repentinas de direção. O segredo está em manter o olhar firme no horizonte, sem se deixar dominar pelo medo ou pela euforia. Quando se aprende a voar com leveza, mesmo em meio às tempestades, o papel deixa de ser frágil e se transforma em símbolo de resistência e propósito.

Voltando a Boris Casoy. Estive com ele duas vezes. Uma, como estudante de jornalismo, com alguns colegas e um professor da faculdade, em sua sala. Nosso professor fez as perguntas de praxe. Mas ele respondia olhando para todos os alunos que estavam se aglomerando em seu local de trabalho. Não me lembro com exatidão de tudo o que ele disse naquela tarde. Mas, curiosamente, recordo-me muito bem de seu chaveiro: deveria ter lá mais de dez chaves. Engraçado como funciona a nossa mente.

Anos mais tarde, fui entrevistado por ele. O que deveria ser uma conversa de cinco minutos acabou se estendendo por um bom tempo, o que criou um certo estresse nos membros de sua produção. Foi um colóquio divertido sobre jornalismo, política e negócios.

A gravura que ele escolheu para pendurar ao lado da porta de casa é um lembrete diário de que voar não necessariamente é uma atividade tranquila, mas que pousar bem é quase sempre possível. Para os empreendedores que se reconhecem nessa metáfora, a lição talvez seja essa: não se trata de eliminar as turbulências pelas quais passamos. Precisamos desenvolver a habilidade de atravessá-las sem perder a altitude — e, de preferência, sem rasgar o papel que dá forma ao nosso aviãozinho.

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