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Afinal, existe ou não o momento “eureca”?

Aluizio Falcão Filho
9 de maio de 2026

Uma nota publicada na revista EXAME que circula nesta semana me chamou a atenção. No texto, o consultor Hitendra Patel diz que toda grande ideia é fruto de um esforço de pesquisa, repetição e insistência. O chamado momento “eureca”, neste contexto, seria “uma grande mentira”. Com o surgimento da Inteligência Artificial, não existe mais a faísca momentânea da criação. Agora, as empresas podem inovar através da simulação de milhares de cenários, mapeando dados antes do lançamento de um produto ou serviço.

Conheço pessoalmente Hitendra Patel através de um amigo comum, o empresário Eduardo Diogo, e respeito bastante seu trabalho. Aceito a lógica de seu raciocínio. Mas talvez eu seja antiquado em achar que existe, sim, o lampejo criativo. Conheço gente que lê ou pesquisa pouco e tem ideias espetaculares, uma atrás da outra. Também existem pessoas que acumulam milhas e mais milhas de leitura, mas nada direcionado, de cunho científico ou corporativo. E são indivíduos criativos bem acima da média.

É bem verdade que Patel desenvolve seu raciocínio em torno do mundo da inovação e não da criatividade em si. Mas vamos nos lembrar de Steve Jobs, a pessoa que começou de fato a era digital ao criar o iPhone. Jobs não rodou nenhum programa para criar um conceito revolucionário: o smartphone com tela que permite comandos de toque e inúmeros usos através da internet. Ele pavimentou o caminho para os aplicativos que regem a nossa vida sem a IA para simular cenários e possibilidades.

É bem verdade que se tivesse à mão softwares de Inteligência Artificial, Jobs poderia ter queimado etapas ou criado um iPhone melhor. Mas ele não precisou de uma ferramenta para ter uma ideia que mudou os rumos da humanidade.

O fundador da Apple tinha, algum tempo antes, criado o iPod, um player digital de música. E achava que os smartphones da época (Blackberry e Palm) eram limitados. Vamos fazer uma comparação aqui: enquanto os Blackberry e os Palm tinham interface semelhante à dos antigos PCs, Jobs trouxe para a telefonia uma navegação gráfica e intuitiva como as de seus Macintosh. E, de quebra, adicionou à equação um dispositivo para navegar na internet, um iPod e uma câmera. Tudo em um só aparelho.

Jobs percebeu que havia uma lacuna entre o que a tecnologia oferecia e o que as pessoas realmente desejavam. Ele uniu intuição a uma leitura precisa do comportamento humano. O resultado foi um salto que mudou a forma como nos comunicamos, trabalhamos e nos relacionamos com o mundo digital. Esse tipo de avanço nasce quando alguém enxerga uma possibilidade que ainda não foi mapeada por dados ou estatísticas. É o instante em que uma mente criativa conecta pontos que ninguém havia antes conectado.

Hoje vivemos um cenário diferente. A inteligência artificial permite testar hipóteses em escala, simular caminhos e antecipar resultados com uma velocidade que nenhum ser humano conseguiria acompanhar. Mas isso não elimina o lampejo criativo. A diferença é que agora pode ser ampliado, refinado e colocado à prova em um ambiente que acelera descobertas.

A combinação entre a criatividade humana e a capacidade da IA de explorar cenários abre uma avenida de possibilidades. Quando esses dois elementos trabalham juntos, surgem oportunidades que transformam setores inteiros. Essa convergência tende a produzir quebras sucessivas de paradigma que vão revolucionar o mundo e alterar profundamente a forma como pensamos, criamos e inovamos.

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