“Não vamos nos dispersar”, disse Tancredo Neves após ter sido eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral em janeiro de 1985. Ele se referia ao grande movimento popular que pediu pela volta das eleições diretas no ano anterior. Tancredo não queria que a força política gerada pelas mobilizações se diluísse com uma vitória em pleito indireto.
Hoje, percebe-se que a esquerda está navegando nas mesmas águas. O chamado “Exército de Lula”, um grupo de WhatsApp com mais de dez milhões de pessoas, não deve ser desmontado por seu criador, o deputado André Janones, e o Planalto pretende realizar grandes concentrações públicas para pressionar um Congresso mais conservador, que toma posse em 2027.
Há, porém, um problema neste raciocínio. Uma mobilização constante precisa de um alvo em comum – ou um inimigo. No caso de Janones, utilizou-se uma narrativa de defesa da democracia para reeleger o mandatário, partindo-se do princípio (nunca comprovado) de que Flávio Bolsonaro poderia atentar contra os princípios democráticos caso fosse eleito.
Com o senador fluminense derrotado nas urnas e fora do Brasil, será difícil encontrar uma bandeira comum. Ficar pregando aleatoriamente contra a direita será uma espécie de mimimi de vencedor, algo que vai irritando a sociedade, como uma piada contada inúmeras vezes.
Quem tem inimigos mais claros, por sinal, é o lado derrotado nas urnas. O establishment brasileiro, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ministro Alexandre de Moraes, vem produzindo bandeiras que podem ser empunhadas pelo conservadorismo nacional. A falta de responsabilidade fiscal (considerada uma “babaquice” pelo presidente), a truculência de determinados juízes do Supremo Tribunal Federal, a disposição de jogar ricos contra pobres, o peso crescente dos impostos e várias promessas de campanhas que dificilmente serão cumpridas são algumas questões que a oposição pode levantar desde agora.
Flávio Bolsonaro poderia ser o líder dessa força oposicionista, mas escolheu outro caminho (seus apoiadores diriam que ele foi forçado a tomar essa decisão). Resta saber, agora, quem vai comandar a oposição neste processo. É preciso de dois líderes, uma versão conservadora de Lula e de Janones. Um como mentor e outro como influenciador de redes.
Dois nomes podem se considerados para esses papéis: o governador Tarcísio de Freitas e o deputado Nikolas Ferreira. O problema é que Tarcísio tem um estado para governar e não pode se dar ao luxo de liderar a oposição durante seu expediente. Já Nikolas, no Congresso, tem mais liberdade para atuar nacionalmente e arregimentar (ainda mais) seguidores nas redes sociais.
A direita, portanto, precisa aprender a lição de Tancredo antes que seja tarde. O cenário de 2030 será bem diferente do atual. Lula não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo e o PT chegará à eleição carregando o desgaste de mais de duas décadas no poder. Ao mesmo tempo, dificilmente haverá um candidato com o sobrenome Bolsonaro nas urnas, o que tira da esquerda o argumento que mais mobilizou seus eleitores nas últimas campanhas: a suposta defesa da democracia.
Será uma janela rara para a oposição. Ela só será aproveitada, porém, se os eleitores que foram às ruas e às redes em 2026 continuarem engajados nos próximos quatro anos, fiscalizando o governo, apoiando novas lideranças e construindo um projeto que vá além do antipetismo. Dispersa, a direita corre o risco de assistir mais uma vez à vitória de um adversário que soube manter suas tropas reunidas.