Confesso que nunca fui fã da canção “Epitáfio”, de Sérgio Britto, um dos maiores sucessos da banda Titãs (imagem — Britto é o que está à esquerda). Implicava muito com aqueles versos sobre trabalhar menos, pois tenho problemas sérios em aceitar a preguiça, seja minha ou dos outros. E achava incompreensível alguém dizer que gostaria de ter visto o sol se pôr mais vezes, pois esse é um dos meus passatempos favoritos. Sempre que possível, não perco um pôr do sol e considero estranho alguém que não veja graça neste momento mágico do dia.
No início de dezembro, porém, Britto compareceu à formatura de sua filha, Júlia, que é colega de classe da minha (elas terminaram o ensino médio há poucos dias). Os alunos resolveram cantar “Epitáfio” e o convidaram ao palco. Nessa, hora, percebi que tinha sido bastante injusto com a letra da canção no passado. São versos que, escritos 24 anos atrás, merecem ser revisitados neste mundo digital e governado por ferramentas de inteligência artificial. Vamos a alguns trechos dessa música e ver o que eles têm a ver com a vida em 2025:
+ Devia ter arriscado mais/ E até errado mais – em uma vida dominada por algoritmos, vamos arriscar cada vez menos. As novas gerações devem desenvolver uma relação de dependência atroz com a chamada IA, perguntando ao Chat GPT e congêneres o que fazer a cada momento de dúvida. Tudo em nome de correr o menor risco possível.
+ Queria ter aceitado/ As pessoas como elas são/ Cada um sabe a alegria/ E a dor que traz no coração – em tempos de intolerância e de cancelamento, as pessoas dificilmente aceitam o próximo, especialmente se este indivíduo não se encaixar no estereótipo de sua bolha.
+ Devia ter me importado menos/ Com problemas pequenos – as redes sociais democratizam os dramas alheios e promovem contratempos menores como se fossem desafios hercúleos. A futilidade tomou conta de boa parte da humanidade e isso eleva a importância que damos aos chamados problemas pequenos.
+ Queria ter aceitado/ A vida como ela é – o inconformismo chegou para ficar neste mundo de hoje. Dessa forma, dificilmente aceitamos o nosso destino e queremos moldar o nosso caminho, com direito a tentar mudar a opinião alheia o tempo todo.
+ O acaso vai me proteger/ Enquanto eu andar distraído – vamos falar novamente de algoritmos. Com essas ferramentas, usadas em praticamente tudo, o acaso é algo que vai diminuir em nossas vidas. Quase tudo no cotidiano pode passar por um exercício de análise preditiva, que irá sugerir soluções para eventuais problemas. Ainda estamos no início deste processo. Mas, à medida em que as empresas tiverem à mão mais dados sobre nossos hábitos, mais vão sugerir produtos e experiências de acordo com o nosso comportamento. Assim, vamos ter uma vida ainda mais confortável. Mas sem surpresas – ou sem a ação do acaso.
Minhas sinceras desculpas ao compositor Sergio Brito (cujo pai, o ex-senador Almino Affonso, de 96 anos, é amigo do meu pai, Aluizio Falcão, que tem 91). A partir de agora, a canção “Epitáfio” vai entrar na minha lista do Spotify. E na de vocês?