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A hora em que revelamos os nossos pensamentos mais profundos

Aluizio Falcão Filho
19 de setembro de 2026

Todos nós temos um lado que procuramos esconder. Ou opiniões que não proferimos. Mas, eventualmente, nossos pensamentos mais profundos acabam escapando e dizemos o que não queríamos falar. Isso geralmente ocorre em momentos de estresse ou de tensão. Ou, paradoxalmente, de relaxamento total. Não existe exatamente uma regra para que isso ocorra. Mas, quando acontece, cometemos aquilo que se convencionou chamar de sincericídio.

Dias atrás, por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou o seu lado sincericida. Apesar dos esforços dos aliados (especial o ministro da Fazenda, Dario Durigan), Lula se mostrou contrário à necessidade de se manter o país dentro dos limites da responsabilidade fiscal. “Para o governo investir, é preciso parar com essa babaquice de fazer superávit, de ter controle fiscal”. O presidente disse o que estava entalado em sua garganta, talvez premido pelos últimos resultados das pesquisas eleitorais. Mas, ao mesmo tempo, pensou que essa frase teria grande receptividade do público.

Outro exemplo de sincericído: Em 2012, num jantar fechado de arrecadação na Flórida, o candidato republicano à presidência Mitt Romney (imagem) explicou aos doadores que 47% dos americanos votariam no oponente Barack Obama de qualquer forma, porque dependiam do governo, se consideravam vítimas e achavam ter direito a saúde, comida e moradia pagas pelo Estado. Concluiu dizendo que não era função dele se preocupar com aquelas pessoas. O barman que servia o evento gravou tudo e divulgou o vídeo. Romney tentou se retratar, mas não deu certo: perdeu a eleição.

Mais um caso? Vamos lá. Em abril de 1991, Gerald Ratner, dono da rede de joalherias Ratners, fez um discurso no Royal Albert Hall, em Londres, e abriu o microfone para perguntas da plateia. Alguém perguntou como ele conseguia vender produtos tão baratos. Ele respondeu que uma garrafa de licor com seis taças e bandeja banhada a prata saía por custava 4,95 libras porque era, em suas palavras, “lixo”. Não bastasse, emendou que um par de brincos de sua loja custava menos que um sanduíche da Marks & Spencer, comentando que o lanche provavelmente duraria mais que os brincos. A plateia gargalhou e bateu palmas.

No dia seguinte, no entanto, a frase estava nos jornais. Nada do que ele disse era mentira: o modelo de negócio da Ratners era exatamente vender bijuteria barata em volume para quem não tinha dinheiro para comprar joias de grife. A empresa perdeu cerca de 500 milhões de libras em valor de mercado, trocou de nome e Ratner deixou o comando da empresa dois anos depois.

O que motiva pessoas poderosas a cometerem esse tipo de deslize?

A primeira razão é a ilusão da sala fechada. Lula falava a militantes, Romney a doadores de campanha e Ratner a um auditório repleto de empresários e executivos. Nos três casos havia a sensação de estar entre iguais. E essa sensação pode desarmar os filtros construídos dentro de nossas mentes. Nestes casos, talvez os personagens não tenham calculado que suas frases seriam lidas depois por quem não estava ali, fora do tom, sem a cumplicidade que a tornava aceitável. O riso da plateia funciona como uma espécie de autorização: se eles estão rindo, é porque concordam, e, se concordam, pode-se ir adiante.

A segunda razão é o cansaço de sustentar a versão oficial. Manter uma opinião engavetada exige esforço permanente, que se desgasta sob pressão. Lula vinha sendo contido pela equipe econômica havia meses. Romney repetia em público uma mensagem de inclusão que contrariava sua leitura privada do eleitorado. Ratner defendia publicamente que produtos eram baratos porque ele trabalhava com grandes volumes. Existe alívio em dizer enfim o que se pensa. Talvez seja por isso que o sincericídio raramente revela um segredo desconhecido. Ele costuma apenas confirmar aquilo que todos suspeitavam e que o personagem em questão tinha a obrigação profissional de negar.

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