Hoje é dia de eleição e o voto nulo ameaça ser um dos fiéis da balança nesta campanha polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Os dois provavelmente vão se encontrar daqui a três semanas e, nos próximos dias, irão lutar para reduzir a seu favor o número de eleitores que pretendem não votar em nenhum deles ou nem comparecer às urnas.
O voto nulo, uma das formas mas antigas de protesto, é conhecido também pela alcunha de “voto cacareco”. Esse apelido surgiu em 1959, quando um jornalista do “Estado de S. Paulo”, Itaboraí Martins, lançou a candidatura de um rinoceronte (imagem) que era a grande atração do zoológico municipal, vindo por empréstimo do Rio de Janeiro.
Martins sugeriu aos leitores que votassem em Cacareco como um tipo de manifestação contrária à corrupção que desde àquela época era um tema palpitante junto à população. Rapidamente, os eleitores aderiram à campanha: gráficas resolveram imprimir voluntariamente santinhos e algumas rádios começaram a tocar jingles fictícios. No final, o animal ganhou cerca de 100.000 votos, dentro de um universo de 1,1 milhão de eleitores e foi o vereador mais votado da capital (amealhando inclusive sufrágios em outras cidades, como a de Marília). Obviamente, teve todos os votos anulados. Mas o ato entrou para a história política e é citado por especialistas até agora como exemplo de descontentamento do eleitorado.
Hoje, a corrupção ainda é um tema que mobiliza milhões de pessoas, mas temos outro problema que atravanca a nossa evolução política: a falta de propostas concretas nas campanhas eleitorais, além de um eleitorado que ainda não é engajado do ponto de vista ideológico. Com isso, uma parcela razoável dos eleitores se comporta de forma contraditória.
Um exemplo está na época de Cacareco. Naquele momento, era possível votar no candidato a presidente de uma chapa e combinar essa escolha com o vice de outra. Por conta disso, Jânio Quadros, da UDN (direita) foi eleito juntamente com João Goulart, do PTB (esquerda), na posição de seu eventual substituto.
Em 2022, quase um quarto dos votos destinados ao governador Tarcísio de Freitas, cuja candidatura foi patrocinada pelo então presidente Jair Bolsonaro, também marcaram o nome de Lula para o Planalto – uma combinação dificílima de entender. Mas que ocorreu.
Voltando à candidatura de Cacareco. Como acontece com muitos políticos, o rinoceronte não era quem parecia ser. Todos achavam que Cacareco era macho. Mas, na verdade, era espécime feminino. Isso, contudo, não impediu que o bicho fosse o candidato ao Legislativo mais votado em todo o Brasil naquele ano.
Folclore à parte, neste 4 de outubro, não deixe de votar. Mas escolha candidatos de verdade e não deixe que os outros decidam o futuro do país por você.