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A extraordinária Alcione Albanesi

Aluizio Falcão Filho
11 de outubro de 2026

Dias atrás, eu e Cristina nos sentamos na mesma mesa com Alcione Albanesi e seu marido, Ricardo Yolle, no casamento da filha de um amigo em comum. Nesta noite, ela me disse que estava lançando um livro e gostaria da minha opinião. Entre essa conversa e o presente final de semana, houve um hiato de tempo no qual “Coragem de Transformar” chegou ao primeiro lugar dos best-sellers de não ficção e lá ficou. Consegui ler o livro durante o dia de ontem e Alcione conseguiu algo raro: ao longo dos anos, foram poucas as vezes que me emocionei durante uma leitura. Pois o seu relato mexeu comigo.

Essa mulher extraordinária estava fadada ao sucesso desde nova, como previu seu padrinho, o médium Chico Xavier. Sua trajetória é impressionante e mostra que algumas pessoas nasceram para transformar o ditado “querer é poder” em realidade. Ela foi a adolescente que viabilizou uma viagem de intercâmbio para os Estados Unidos; a jovem empreendedora que criou uma confecção de sucesso; e a visionária que enxergou o potencial da China como fornecedora de lâmpadas de baixo custo.

Mas o principal capítulo na vida de Alcione começou a ser escrito em 1993, quando ela viajou ao Sertão nordestino pela primeira vez e levou um caminhão de mantimentos para as comunidades carentes.

Ela descreve as pessoas com quem vem convivendo desde então com carinho, sensibilidade e poesia. Alcione capturou a essência do povo nordestino, que mantém a dignidade mesmo nos momentos mais difíceis. São pessoas desconfiadas, de temperamento sertanejo, que disfarçam no olhar as adversidades que enfrentam.

Impressionante a narrativa de pais e mães desesperados por não conseguir alimentar suas famílias – alguns deles devidamente registrados em fotografias. É possível ver no semblante de cada um a aflição intensa e a perda de esperança. O trabalho de Alcione cura esse desalento e essa agonia. Combate a fome e resgata a cidadania de milhares de pessoas, além de oferecer um futuro melhor para as crianças que habitam esses grotões.

No início, Alcione e seus voluntários (entre os quais, seus quatro filhos: Richard, Caroline, Juliene e Sérgio) entregavam comida e brinquedos. Mas, depois, construiu as cidades do Bem, polos de ensino e de produção. Adultos são empregados e crianças vão à escola. Falando nisso, a escola de Alcione no sertão de Pernambuco registra um IDEB de 9,8 (o principal indicador de qualidade de ensino do país, cuja nota máxima é 10).

É impressionante ver alguém deixar de lado uma vida de conforto proporcionada por um sucesso enorme e mergulhar em uma jornada de altruísmo e generosidade. A entidade que Alcione dirige, Amigos do Bem, é um exemplo a ser seguido. Não se restringe apenas ao assistencialismo; oferece um futuro de verdade para adultos e jovens. Mostra um caminho onde a trilha estava fechada e acidentada.

O Brasil ainda não produziu um prêmio Nobel. Mas acredito que podemos ter em Alcione uma candidata com tudo para receber essa honraria. Convoco todos os amigos de Alcione, no Sertão e no restante do país, a apoiar essa candidatura. Na terça-feira, após o feriado, vou descobrir os caminhos para indicar o seu nome à Fundação Nobel e ao Comitê Norueguês. Ela merece.

P. S.: um dos prefácios, escrito por Augusto Cury (ele mesmo, o autor que foi candidato à presidência no primeiro turno), traz algumas linhas de sabedoria, que traduzem muito bem a trajetória de Alcione. Reproduzo aqui esse trecho: “A autora entendeu que o verdadeiro sentido da vida não está em conquistar o mundo e perder a sensibilidade. Está em conquistar a si mesma sem perder a capacidade de cuidar do outro. A maior miséria da humanidade não é econômica, mas emocional; e a maior riqueza não é possuir muito, mas sentir profundamente a dor do outro. Este livro não fala apenas de empreendedorismo, superação ou solidariedade. Ele fala da arte de continuar um ser humano em eterna construção em um mundo que está adoecendo emocionalmente”.

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