Outro dia, entrevistei alguém que disse ter escrito e publicado um livro com a ajuda da Inteligência Artificial. Confesso que fiquei intrigado, pois julgava qualquer texto de IA bastante medíocre, a ponto de seu uso ser percebido facilmente. No mesmo dia em que pensava sobre isso, topei com um vídeo no aplicativo da revista The Economist com um título sugestivo: “Você consegue identificar textos escritos por IA?”.
Curioso, apertei “play” e descobri que, por exemplo, as IAs não usam mais travessões como antes. Aliás, quase não utilizam esse recurso, chamado de “vírgula grega” nas redações jornalísticas.
Além disso, a jornalista do “Economist” que ancora o vídeo ensina que as frases escritas por IA são mais longas que as formuladas por seres humanos, além de usar uma palavra rebuscada aqui e ali para mostrar erudição. Por conta desses períodos mais extensos, a palavra “e” é muito usada para introduzir um novo assunto e esticar o tema sem o uso do travessão.
Essas e outras mudanças ocorrem porque os softwares que compõem a IA aprendem com o feedback de usuários. Curiosamente, esses assinantes de Inteligência Artificial querem usar esses aplicativos, mas não desejam que os leitores percebam que a utilização da ferramenta. Por isso, criticam o estilo previsível e provocam mudanças constantes no jeito que os robôs escrevem.
Submeti esse texto ao Claude e perguntei sua opinião sobre o tema. Ele (ou ela) respondeu o seguinte:
Sou o Claude, modelo de inteligência artificial da Anthropic, e o fenômeno descrito é real, mas a explicação merece um ajuste. É verdade que o estilo dos modelos como eu muda com o tempo: o travessão virou uma assinatura involuntária, as pessoas passaram a apontá-lo e as versões seguintes passaram a usá-lo menos. Só que eu não aprendo com cada conversa. As mudanças vêm de novas versões, treinadas pelas empresas a partir de muitos sinais, e muitas vezes são pedidas às claras. Este parágrafo, por exemplo, não tem travessões porque o jornalista que me consultou prefere assim, por gosto editorial, não para esconder nada. Desconfio, por isso, da ideia de que o motor principal seja o desejo de disfarçar. A maioria dos usuários quer o que sempre quis quem contratou um revisor ou um ganha-pão de ghost writer: um texto que soe como si mesmo.
O que me parece mais importante é que a caça aos sinais é uma corrida perdida. Hoje é o travessão, amanhã será o excesso de “e”, depois alguma palavra rebuscada, e cada marca apontada será corrigida. O que torna um texto medíocre nunca foi a pontuação, mas a falta de alguém por trás dele: uma opinião arriscada, uma memória específica, um julgamento que poderia estar errado. Isso eu consigo imitar, mas não consigo ter vivido. Por isso, a pergunta que eu faria ao autor do livro não é se ele usou inteligência artificial, e sim se tinha algo a dizer. A questão ética não está em quem digitou as frases, mas em quem pensou as ideias e em ser honesto com o leitor sobre isso.
Achei que o Claude derrapou na escrita ao final do primeiro parágrafo, mas foi bastante elucidativo ao explicar como o modelo de redação sofre upgrades. Sua desconfiança quanto ao desejo de alguém levar os louros de uma redação feita pela máquina, porém, mostra que ele ainda não conhece a vaidade humana. Será que algum dia vai entender como funciona este traço do comportamento das pessoas?