Até agora, Flávio Bolsonaro não conseguiu encontrar um (ou uma) vice e faltam dois dias para o prazo final de registro de chapas. Quando achou que estava tudo resolvido para retomar sua primeira escolha, a senadora Tereza Cristina, tudo voltou à estaca zero com o veto do PP à aliança partidária. Neste aspecto, o senador parece repetir o mesmo problema que afligiu o pai em 2018. Apesar das grandes chances de vitória, Jair Bolsonaro não conseguia encontrar um companheiro de chapa. O favorito, o senador Magno Malta, não topou. Após muitas idas e vindas, bateu-se o martelo pelo então general reformado Hamilton Mourão, que hoje representa o Rio Grande do Sul na Câmara Alta.
Flávio não é o único a ter problemas para encontrar alguém que o acompanhe na chapa eleitoral. Romeu Zema está na mesmíssima situação. Talvez o caminho dos dois seja o de apresentar uma chapa puro-sangue, com vices de seus próprios partidos. Depois do veto dos pepistas à indicação de Tereza Cristina, as atenções se voltam ao Republicanos, partido da ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques. Mas até entre os mais otimistas do núcleo bolsonaristas estão reticentes quanto a essa possibilidade.
Para Ronaldo Caiado, o jeito foi usar o presidente de sua sigla, Gilberto Kassab, após fazer sondagens que não deram resultado. Renan Santos, do Missão, também foi buscar nos quadros de seu partido o companheiro de chapa, o tenente-coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Sul. Talvez seja por isso que na convenção partidária que oficializou o seu nome, Renan tenha dito que iria “matar quem roubar”.
Tradicionalmente, um candidato à vice-presidência se viabilizava por trazer potencialmente votos de uma região do país, pela capacidade de articulação política ou para passar uma mensagem ao eleitorado. Marco Maciel, por exemplo, foi escolhido como vice de Fernando Henrique Cardoso por representar o Nordeste e ter uma enorme capacidade de costurar acordos partidários que pareciam ser impossíveis. Nesta mesma toada, José Alencar virou segundo de Luiz Inácio Lula da Silva para mostrar ao empresariado que o primeiro mandato do petista não traria alguma ruptura econômica.
A polarização e a introdução do fundo eleitoral, no entanto, mudaram esse estilo de fazer política. Como os partidos estão mais preocupados em fazer deputados federais e não mais eleger o presidente da República, escolher um vice virou uma batata quente, pois nenhuma sigla do centrão quer se mostrar totalmente alinhada à oposição ou ao governo.
A lógica é simples e financeira. O fundo eleitoral distribui recursos proporcionalmente à bancada, que se constrói na disputa proporcional, não na majoritária. Entrar numa chapa presidencial como vice significa carimbar o partido inteiro com um rótulo que atrapalha o candidato a deputado federal do estado onde aquela marca é rejeitada. Uma sigla do centrão que hoje transita entre governo e oposição consegue eleger deputados nas duas pontas do espectro, e é exatamente essa ambiguidade que sustenta o tamanho da bancada e, por consequência, o naco do fundo. Colar-se a um projeto presidencial destrói esse ativo em troca de um cargo que, se a chapa perder, não vale absolutamente nada. Em caso de vitória, o que se tem é um posto sem orçamento e sem caneta. O cálculo de risco e retorno simplesmente não fecha. É por isso que os presidentes de partido dizem não com uma tranquilidade que teria sido impensável nos anos de Marco Maciel e José Alencar.
Enquanto essas duas variáveis permanecerem de pé, a escassez de vices será a regra, não a exceção. A polarização retirou do vice a função de ponte, porque não há mais o que ligar quando o eleitorado se organiza em dois blocos que não se falam. Já o fundão retirou o incentivo econômico de assumir qualquer risco de identidade partidária. Sem função política e sem retorno financeiro, sobra apenas o custo. O resultado prático é o que Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos já descobriram cada um a seu modo, ou seja, que a chapa puro-sangue deixou de ser demonstração de força e virou consolação. Acordos partidários para a vice-presidência só voltarão a existir quando eleger presidente valer mais para uma sigla do que preservar a bancada. Nada indica, porém, que esse cenário político vá mudar em 2030. Portanto, para os futuros presidenciáveis, é melhor se acostumar ao modelo atual.