O feriado de hoje é dedicado à Nossa Senhora Aparecida, mas muitos se lembram apenas do chamado Dia das Crianças, inventado em 1924 e popular apenas a partir do final da década de 1950. A data foi trabalhada pela fabricante de brinquedos Estrela justamente para agitar as vendas antes do Natal e acabou virando uma coqueluche entre a criançada.
Ainda anteontem, assisti a um vídeo que mostrava estrelas de Hollywood quando era crianças. Isso me fez lembrar da data desta segunda-feira e de como eu era quando pequeno (imagem). Ocorre que não temos apenas uma infância. A medicina e a psicologia estabelecem quatro estágios, mas prefiro dividir essas fases de acordo com minha memória.
Não lembro de nada de minha existência até os quatro anos de idade. Mas isso é comum: quase ninguém se recorda dos primeiros anos de vida. Para Sigmund Freud, isso não é simples falha da memória e sim repressão. Os desejos e conflitos da infância seriam empurrados para o inconsciente, de onde continuam agindo, nos sonhos, nos atos falhos e nas neuroses desenvolvidas por todos.
Depois, encontro em minha mente uma fase que parece encoberta por uma névoa, dos 4 aos 7 anos. Tenho algumas lembranças, mas não são nítidas – algumas das quais muito marcantes. É a partir dos 8 anos, no entanto, que começam minhas memórias de fato, com direito a detalhes minuciosos de roupas e cenários, além de alguns cheiros que ficaram marcados para mim.
Entro em contato com essa criança que fui com alguma frequência. Meus gatilhos de irritação são praticamente os mesmos desde a tenra idade. E, neste quesito, sou uma pessoa altamente previsível. Do outro lado do espectro das emoções, sou muito sensível a determinados sabores, música e aromas. Constantemente, sou estimulado pela minha memória afetiva.
Alguns cheiros, especialmente, têm o poder de me deixar feliz. A fragrância do perfume Chanel N.5, que lembra a minha mãe. O cheiro de determinadas ruas do Recife, onde nasci, aromatizadas por uma combinação das folhas de árvores como Mangueira, Santa-Bárbara e Casuarina. E o odor de alguns doces cuja existência marcou minha infância e dura até hoje, como a Lajotinha, o Diamante Negro e qualquer bombom de marzipã. Tenho também uma lembrança forte do cheiro de dois chocolates que eram populares de quando era garoto: o Pan e o Sonksen.
O mesmo vale para música, filmes antigos, desenhos animados ou seriados que vi na primeira fase de minha vida. Sou teletransportado para um canto só meu, escondido na memória, e consigo sorver, por alguns instantes, a sensação de ser criança de novo.
Talvez seja esse o melhor presente que o Dia das Crianças pode oferecer a quem já passou da idade de ganhar brinquedos. A Estrela inventou a data para vender bonecas e carrinhos, mas o que de fato sobrevive da infância não cabe numa caixa embrulhada para presente. Trata-se de um sentimento que está vivo em nossas mentes. Os brinquedos do passado quebraram, se perderam ou foram doados. A criança que fomos, não. Ela continua ali, quieta, esperando apenas o estímulo certo para voltar à tona. Talvez porque talvez ela nunca tenha ido embora: só aprendeu a se esconder melhor.