A escritora Hannah Arendt (imagem), no livro “Eichmann em Jerusalém”, introduziu o conceito de “banalidade do mal” para descrever como atrocidades podem ser cometidas por pessoas comuns que renunciam ao pensamento crítico e se refugiam na obediência cega às normas e rotinas. Para Arendt, “o maior mal não é radical, ele não possui raízes e porque não tem raízes não tem limitações”. Trata-se de uma advertência de como atitudes malignas podem se infiltrar na vida cotidiana quando o julgamento moral é suspenso em favor da conformidade.
Neste ano de 2025, tivemos vários exemplos de maldades vindas de pessoas aparentemente comuns, que não exalavam crueldade ou barbárie em seus cotidianos. Mas produziram perversidades silenciosas ou brutalidades que chocaram milhões de pessoas. Não cometeram atrocidades porque estavam cumprindo ordens e sim de livre e espontânea vontade — ao contrário do que constatou Arendt — e representam outro tipo de normalização da barbárie.
O recente esquema de fraudes no INSS, que desviou R$ 6,3 bilhões de milhões de aposentados vulneráveis, por exemplo, mostra a banalidade do mal em sua forma burocrática. Servidores e dirigentes trataram idosos como números em cadastros falsificados, encarando desvios como se fossem meros procedimentos administrativos. Arendt observou que “a essência do governo totalitário, e talvez da burocracia em geral, é transformar homens em funcionários e funcionários em executores”. Neste caso específico, é possível ver como a engrenagem institucional foi usada para desumanizar vítimas e tornar o roubo aos aposentados em um ato rotineiro.
O episódio no qual uma mulher foi morta após ser atropelada em São Paulo e arrastada por um quilômetro, revela a banalidade do mal na esfera privada. O agressor não se apresenta como um monstro excepcional, mas como um homem comum que internalizou normas patriarcais de posse e controle. Arendt insistia que “pensar é perigoso, mas não pensar é mais perigoso ainda”. A incapacidade de refletir sobre a dignidade da outra vida transforma ciúme e frustração em violência extrema, banalizando o corpo feminino como propriedade descartável.
Temos ainda o caso da educadora que agrediu uma criança de dois anos em creche de Osasco. Um exemplo de como a crueldade normalizada pode emergir em ambientes supostamente protetores. Irritada com o choro, a cuidadora reduziu a criança a um obstáculo trivial, repetindo agressões como se fossem parte da rotina. Hannah Arendt observou que “o mal prospera onde não há pensamento” e, nesse caso, a ausência de reflexão ética diante da vulnerabilidade infantil converteu o cuidado em violência. A rotina exaustiva e a conformidade profissional suprimiram a empatia, revelando como a maldade pode se infiltrar em gestos cotidianos.
A ótica da escritora alemã mostra como a vileza não se manifesta apenas em grandes crimes históricos, mas também em práticas administrativas, relações íntimas e espaços em que deveria reinar apenas o senso de proteção. A banalidade do mal é a renúncia ao pensamento crítico, a abdicação da responsabilidade moral e a normalização da violência como parte da rotina. Nosso desafio, portanto, é cultivar o pensamento e a responsabilidade ética em cada esfera da vida, para que a rotina não se converta em desumanização. Que o ano de 2026 venha com mais pessoas que tenham o cuidado de pensar antes de agir para que possamos construir um futuro melhor para a humanidade.