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Um tipo diferente de nostalgia

Hoje é feriado (de verdade) e meu aniversário. Uma boa oportunidade para falar de algo que não tenha a ver com política, economia ou negócios. Uma escapada dos temas de sempre e especialmente da pandemia, da qual estamos fartos e esgotados emocionalmente. Por isso, resolvi me debruçar sobre algo que vem ganhando volume em alguns grupos dos quais participo: a nostalgia, uma espécie de exaltação melancólica dos velhos tempos. Em determinados posts, é possível perceber um orgulho latente de ter pertencido a uma geração com hábitos totalmente diferentes dos jovens de hoje.

Nessa idealização, fala-se com ironia do fato de muitos de nós termos sobrevivido a passeios de carro sem cinto de segurança ou de moto sem usar capacete. De termos jogado futebol nas ruas e arriscado nossos pescoços em carrinhos de rolimã. Vivi essas experiências e foi mesmo algo bacana. Muito melhor do que a geração de hoje? Não sei. Algumas traquitanas do mundo moderno são maravilhosas e tornam a vida dos jovens de hoje muito parecida com a que víamos na série “Os Jetsons”. Talvez uma coisa compense a outra. Mas o fato é que as crianças de hoje não podem sentir falta daquilo que elas não viveram – no caso, uma infância vivida nas ruas, sem medo da violência urbana.

A exaltação do passado que vejo nos leva a algumas distorções. Vi outro dia um meme exaltando os bailinhos de garagem, tão populares em minha adolescência. Parece até que a juventude de hoje não faz nada parecido, o que é engano. As festas de hoje podem não ter aquela inocência do passado, mas em compensação têm deejay, efeitos de iluminação incríveis e aparelhos de som potentes como os de uma danceteria dos anos 1980.

Outro exagero que vejo está em um texto que devo ter batido os olhos mais de uma centena de vezes, exaltando o estilo de vida das gerações anteriores. Lá pelas tantas, há uma menção em que os filhos sempre pediam a bênção aos pais. Isso seguramente ocorreu em várias famílias. Mas não na minha. Na casa de vários vizinhos (em uma delas, por sinal, havia seis crianças) isso não acontecia e na de vários colegas da escola idem. Nada contra pedir a bênção dos pais, pelo contrário. É um sinal de respeito e de religiosidade. Mas isso não era regra de comportamento.

Ao envelhecermos, temos de lidar fatalmente com perdas. Parentes se vão. Lembranças se apagam da memória. Lugares que foram importantes para a sua vida vão sendo demolidos e dando lugar a construções modernosas (como diria Caetano Veloso, “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”). O comportamento das pessoas muda. A tecnologia evolui e nos torna, em algumas situações, obsoletos.

Tudo isso traz um desconforto que pode ser enorme para alguns. Diante disso, bate a nostalgia. E o passado passa a ser um local sagrado. Aquele mundo no qual tudo é mais simples, mais fácil e mais feliz. O resultado? As pessoas começam a escrever textos e gastar seu tempo montando memes endeusando os tempos de outrora.

Tenho alguns momentos nostálgicos, algo perfeitamente comum para alguém que já cruzou a barreira dos cinquenta há algum tempo. Mas, curiosamente, me apego mais a manifestações artísticas, como a música, o cinema e a literatura do que lembrar como era verde o vale da minha infância – e tenho verdadeiro horror a achar que o mundo era melhor antes. Não consigo enxergar isso, mesmo agora com a Covid-19 batendo em nossas portas e fazendo milhões de vítimas no mundo inteiro.

Mesmo com a violência urbana e uma miríade de outros problemas, vejo o avanço que o Brasil obteve nas últimas décadas e penso que devemos buscar forças para melhorar a nação ainda mais, erradicando agruras como o abismo social que insiste em teimar em nossa sociedade.

Reluto muito em compartilhar aquilo que realmente sinto falta das experiências passadas. Sou daqueles que lê uma biografia e fica impaciente com as páginas que detalham a infância e a adolescência do autor. Por isso, acabo enxergando essas minhas particularidades como algo que não vai interessar a mais ninguém.

Mas, em poucas linhas, aqui estão cinco coisas das quais sinto falta e jamais voltarão:

+ O cheiro de um disco novo de vinil e a expectativa em ouvi-lo pela primeira vez. O barulho que a bolacha fazia ao deixar o envelope da embalagem e principalmente os chiados da agulha encostando nos sulcos do long-play.

+ A expectativa que tomava conta de todos na véspera de Natal, mesmo sabendo que Papai Noel era uma invenção de nossos pais. A dúvida sobre se iríamos ganhar o presente que tínhamos pedido, que só se dissipava quando rasgávamos o papel da embalagem (de vez em quando, era um anticlímax, pois não recebíamos o que queríamos).

+ A sensação de liberdade que tomava conta de mim quando as aulas acabavam ao final do ano e tínhamos dois meses e meio de férias pela frente. Para uma criança ou um adolescente, um prazo de 75 dias era quase uma eternidade.

+  A capacidade de mergulhar totalmente em um filme, deixando a imaginação se fundir totalmente com o enredo. Fugir totalmente da realidade, numa entrega total, durante duas horas no escurinho do cinema.

+ O sentimento de poder absoluto sobre o futuro e de que tudo o que viria a acontecer só dependeria de mim e de mais ninguém.

Penso nessas reminiscências sem saudade, tristeza ou melancolia. Meu presente é muito atribulado e simplesmente adoro o meu trabalho. Meu envolvimento com as coisas que acontecem agora me jogam para uma jornada profissional que começa às 7:00 e vai se encerrar muitas vezes às 23:00. E, nos momentos de folga, não deixo para depois algo prazeroso que pode ser feito imediatamente. A fugacidade da vida, como vimos nos últimos doze meses, é uma realidade brutal. Assim, precisamos aproveitar cada pedacinho desta nossa existência.  

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Mônica.