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Demitir petistas ou não, eis a questão

Aluizio Falcão Filho
7 de novembro de 2026

No mundo empresarial, existe uma devoção ao conceito de meritocracia, segundo o qual promoções e aumentos de salário devem ser conquistados pela competência, pelo esforço e pelos resultados de cada profissional. Diante disso, nada deveria ser importante além do mérito. Cor de pele ou religião, por exemplo, não deveriam ser considerados na hora de avaliar um colaborador. Mas e ideologia? O fato de alguém ser petista deveria ser um fator de avaliação? Alguém deveria ser demitido por apoiar o PT nas eleições?

Antes de mais nada, estamos em um regime capitalista e, em tese, os donos das empresas têm total liberdade para contratar, promover ou demitir quem quiserem. Mas, aos olhos da lei, não é bem assim: a Constituição garante que ninguém será privado de direitos por convicção política e a Lei 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias na contratação e na demissão de colaboradores. Na Justiça do Trabalho, a demissão por motivo político costuma ser considerada discriminatória e pode resultar na reintegração do funcionário e em indenização por dano moral.

De qualquer forma, estamos em uma época de polarização política e, após a derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições, acirrou-se um debate que teve início há alguns anos: o de que funcionários petistas deveriam ser demitidos por empresários e CEOs.

Do ponto de vista conceitual, aqueles que trabalham para aumentar o resultado de uma empresa precisam ter uma mente empreendedora e totalmente sintonizada com os conceitos capitalistas de concorrência e expansão dos negócios. Neste contexto, aqueles colaboradores com pensamento anticapitalista poderiam adotar uma postura contraproducente em suas tarefas.

Por outro lado, há funções dentro de uma companhia nas quais pouco importa a orientação política de um funcionário. Além disso, posições ideológicas podem mudar com o tempo. Carlos Lacerda, Paulo Francis e mesmo Olavo de Carvalho foram alguns ex-comunistas que passaram para o outro lado, assim como o escritor peruano Mario Vargas Llosa e o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda.

Ao demitirmos petistas, avalizaremos o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tentar jogar pobres contra ricos. Podemos ainda  incorrer em um erro comum: confundir antibolsonaristas com petistas. À primeira vista, esses indivíduos podem parecer iguais, pois teriam votado em Lula. Mas alguns o fizeram por rejeição ao candidato do bolsonarismo e não por petismo.

Além disso, é inviável do ponto de vista estatístico encontrar apenas colaboradores que pensem igual a um CEO ou um empreendedor. Mas, em nome da criação de uma cultura empresarial, é preciso selecionar candidatos a uma vaga que tenham algum tipo de identificação com os conceitos que norteiam a gestão de uma empresa.

Nas grandes corporações, porém, isso não é possível. Não é à toa, portanto, que a cultura woke tenha prosperado tanto em determinadas multinacionais, justamente aquelas que mais contribuem para a consolidação do capitalismo em vários países.

Demitir por ideologia, portanto, pode cobrar um preço alto, das empresas e da sociedade. Equipes formadas apenas por quem pensa igual ao dono perdem a capacidade de enxergar riscos, questionar decisões e entender os clientes que veem o mundo de forma diferente. Num Brasil dividido ao meio, a perseguição política no ambiente de trabalho aprofundaria a fratura, empurraria trabalhadores para o ressentimento e daria munição justamente ao discurso que coloca patrões e empregados em lados opostos. O critério mais seguro continua sendo o desempenho. Quem sabota o trabalho por convicção deve responder pelo resultado ruim.

É como decidir ouvir apenas músicos e compositores de direita. A playlist ficaria sem Chico Buarque, Caetano Veloso ou Gilberto Gil e o ouvinte acabaria restrito à música sertaneja. Nada contra o gênero, que tem talentos indiscutíveis e lota estádios pelo país afora. Uma vida inteira ouvindo um único estilo, porém, empobrece o repertório e o mesmo vale para uma empresa que só admite um tipo de pensamento. A diversidade de ideias é matéria-prima da inovação, e o capitalismo, afinal, se alimenta da concorrência, inclusive a de ideias.

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