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Uma carta a Abilio Diniz

Aluizio Falcão Filho
31 de outubro de 2026

Caro Abílio,

Nos últimos dias, me peguei pensando em você algumas vezes. Já faz cerca de um ano e meio que você não está mais entre nós e nunca fomos exatamente amigos. Mas costumávamos trocar mensagens pelo WhatsApp de vez em quando, especialmente para falar ideias sobre questões ligadas à religião, especialmente depois de uma conversa na qual me contou que suas corridas na esteira eram embaladas pela leitura da Bíblia.

Somente hoje percebi a razão dessa lembrança frequente. É que as convicções políticas me colocaram em posição contrária à de pessoas queridas da minha família. Talvez exista uma conexão aqui: vc se desentendeu também com familiares, embora por motivos totalmente diferentes.

Pelo pouco que nos conhecemos, tenho certeza que esse antagonismo trouxe uma ferida em sua alma. E imagino o quanto isso tenha mexido com você durante a briga fratricida na qual sua família se envolveu. Durante o final da campanha eleitoral, me afastei de familiares que amo e são muito importantes para mim. Acredito que isso tenha acontecido com milhares — ou milhões — de brasileiros.

Percebi o quanto isso pode afetar uma pessoa. Essa oposição política nunca me fez odiar quem pensava de forma diferente de mim. E provavelmente isso tenha a ver com a minha condição dentro de uma família com pensamentos e conceitos diferentes do meu.

Sei que não posso convencer os outros apenas com argumentos racionais. Política e religião são temas que mexem irremediavelmente com as emoções. Por isso, preferi evitar discussões que podem gerar mágoas e rompimentos.

Concordar com quem pensa como nós exige pouco. O esforço verdadeiro está em continuar enxergando o que está por trás de uma opinião que nos incomoda: as lembranças de infância, os almoços de domingo, o cuidado nas horas difíceis. Uma eleição dura alguns meses. Esses laços levaram uma vida inteira para se formar e merecem sobreviver a ela.

Talvez seja nesse exercício que podemos evoluir como seres humanos. Quem convive apenas com aqueles que pensam igual aprende pouco. A divergência, quando acolhida com respeito, nos obriga a rever certezas, a ouvir com mais atenção e a reconhecer que ninguém detém sozinho a verdade. Imagino que você, que buscava na Bíblia companhia para suas corridas na esteira, concordaria que a humildade diante do que não compreendemos é parte do crescimento de qualquer pessoa. Com as ideias políticas, acontece algo parecido.

Foi pensando nisso que resolvi lhe escrever esta carta, que você nunca vai ler. Provavelmente esse texto sirva mais a mim do que a você, como um lembrete de que as feridas abertas nestes meses podem cicatrizar se houver disposição dos dois lados. Agora que a eleição ficou para trás, quero voltar a me sentar à mesa com as pessoas que amo, falar de música, cinema, futebol, comida, lembranças e deixar que o tempo faça o seu trabalho. E espero que, onde estiver, você tenha encontrado a paz que tantas vezes buscou.

Um abraço,

Aluizio

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