Em sua primeira coleção autoral, arquiteto transforma animais brasileiros em sete peças de edição limitada e leva ao mobiliário uma pesquisa construída entre arquitetura, arte, natureza e design
Um tamanduá pode virar banco. Um jabuti, mesa de centro. E a preguiça, poltrona. Mas, na primeira coleção autoral de mobiliário de Vinícius Rosaneli, a fauna brasileira aparece longe da representação literal. Os animais são reduzidos a volumes, proporções e soluções construtivas até se transformarem em peças que transitam entre móvel, escultura e objeto de coleção.
Batizada de Brasilis, a série foi apresentada nesta terça-feira (22), na Patio Brasil, em São Paulo, justamente no Dia Nacional em Defesa da Fauna. São sete peças concebidas em séries limitadas e assinadas, marcando a entrada de Rosaneli no design de produto depois de uma trajetória concentrada em arquitetura e interiores.
A coleção parte de espécies brasileiras para construir um repertório próprio. O Banco Tamã toma o tamanduá-bandeira como referência, enquanto o Banco Muriqui remete ao macaco-muriqui. As mesas de centro Tinga e Piranga são associadas ao jabuti-tinga e ao jabuti-piranga; a Poltrona Preguiça carrega a inspiração já no nome; e a série se completa com Mesa Esperança e Cadeira Esperança.




Algumas das peças de Brasilis, apresentadas individualmente em diferentes materiais e soluções construtivas | Divulgação
O exercício, porém, não é transformar bichos em móveis de maneira literal. No Banco Tamã, por exemplo, o tamanduá aparece na extensão horizontal do corpo e na terminação alongada. Nas mesas inspiradas em jabutis, a referência é sintetizada em formas baixas e circulares, mais próximas do chão.


Brasil sem folclore
É justamente aí que Brasilis encontra seu caminho mais interessante: falar de identidade brasileira sem recorrer à caricatura.
Madeira, quartzitos e metais são combinados em contrastes entre quente e frio, peso e leveza, enquanto encaixes de madeira e forquilhas deixam de ser apenas recursos técnicos e passam a integrar o próprio desenho. A coleção estabelece ainda um diálogo com princípios do modernismo brasileiro, sobretudo pela valorização da estrutura, da matéria e da clareza formal.


Os detalhes construtivos também ajudam a explicar essa linguagem. Estrutura e técnica não ficam escondidas: aparecem de forma deliberada, transformando o encaixe em parte da estética do móvel.

Essa busca pela matéria não começou agora. O estúdio de Rosaneli trabalha arquitetura, interiores e design a partir de materiais naturais, luz, arte e uma estética menos submetida ao excesso ou à tendência passageira. No material que apresenta a filosofia do escritório, essa ideia é resumida de forma direta: “O valor contemporâneo está no que persiste.”
Em Brasilis, esse pensamento ganhou o conceito de “Território Vivo”. A proposta parte da ideia de que território não se encerra nas fronteiras de um mapa. Ele também permanece na memória, na matéria, na cultura e nas maneiras pelas quais a natureza ajuda a formar uma identidade.
“Território não é apenas lugar, é, sobretudo, aquilo que nos habita”, afirma Rosaneli.

O Brasil da coleção, portanto, não está apenas nos bichos que batizam as peças. Aparece também nos materiais, nos modos de construção e em uma leitura do país feita menos por símbolos evidentes e mais por textura, proporção e memória.
Entre São Paulo, Bahia e Michigan

A mistura de referências acompanha a própria formação do arquiteto.
Filho de um designer automotivo, Rosaneli cresceu próximo ao processo de criação e à relação entre forma, função, cálculo e conforto. Sua infância foi dividida entre São Paulo e Bahia, além de uma passagem por Michigan, nos Estados Unidos. Com raízes familiares italianas, construiu um repertório que mistura referências europeias, tropicais e urbanas.
Essa formação ajuda a explicar outra ideia recorrente em seu trabalho. No material que apresenta sua trajetória, a arquitetura é descrita não apenas pelo espaço físico que ocupa, mas pela experiência que produz: “a arquitetura não se limita aos volumes, ela se define pelo que desperta.”
É uma noção que agora passa da escala do ambiente para a do objeto.
Com trabalhos no Brasil entre Bahia, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, além de projetos internacionais em andamento, Rosaneli vinha construindo sua atuação principalmente em arquitetura e interiores. Brasilis inaugura uma nova frente, levando para sete móveis questões já recorrentes em seus projetos, como proporção, materialidade, estrutura e precisão construtiva.
Do ambiente ao objeto de coleção
A mudança de escala também abre uma nova frente de negócios para o arquiteto. Em vez de desenhar apenas o ambiente e selecionar aquilo que estará dentro dele, Rosaneli passa a colocar no mercado peças capazes de circular independentemente de seus projetos de arquitetura.
A opção por séries limitadas e assinadas reforça o caráter autoral de Brasilis e aproxima os móveis do universo do design colecionável, no qual desenho, procedência, materialidade e quantidade produzida também ajudam a construir valor.

A estreia aconteceu em parceria com a Patio Brasil, empresa que atua há 26 anos no mercado de mobiliário de alto padrão e mantém produção própria em Uberaba, Minas Gerais. Especializada em peças para áreas externas e espaços de transição, como varandas e áreas gourmet, a marca inaugurou seu primeiro showroom em São Paulo na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, endereço escolhido para apresentar a coleção.
A associação também insere Brasilis em uma discussão maior do mercado de luxo contemporâneo: a valorização de autoria, história, trabalho manual e permanência em oposição à lógica de consumo acelerado e de tendências que envelhecem rápido.
No caso da coleção, o caráter colecionável não vem apenas da tiragem limitada. Vem da tentativa de fazer com que cada peça carregue uma narrativa própria, ainda que sem abrir mão da função.


Fauna, ancestralidade e futuro
A narrativa brasileira extrapola o mobiliário.
O convite do lançamento trouxe uma obra da jovem artista Isabel Eulálio, criada quando ela tinha 12 anos. Na paisagem, água e terra estruturam a composição, o voo dos guarás sugere o ar e a intensidade cromática das aves se aproxima do fogo. Há ainda uma referência ao Manto Tupinambá, ligando fauna, ancestralidade e memória cultural.
A escolha acrescenta uma dimensão de futuro ao projeto. Se Brasilis parte de espécies, paisagens, técnicas e memórias brasileiras, a presença de uma obra produzida por uma nova geração ajuda a deslocar esse repertório da nostalgia para a continuidade.
No fim, a coleção fala menos sobre colocar animais dentro de casa do que sobre encontrar novas formas de representar o Brasil.
Tamanduás, jabutis, muriquis, preguiças e esperanças são o ponto de partida. O que chega ao mobiliário são madeira, pedra, metal, encaixe, proporção e uma tentativa de transformar território em desenho — e de criar objetos capazes de continuar fazendo sentido depois que a tendência da vez passar.
Apresentada na terça-feira (22) em um vernissage na Patio Brasil, em São Paulo, a coleção Brasilis — Vinícius Rosaneli para Patio Brasil permanece em exposição até 25 de setembro, das 10h às 19h, no showroom da marca, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 232.
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