Por conta de uma conversa sobre boas maneiras, resolvi reler “Na sala com Danuza”, uma espécie de manual informal de bom comportamento e de bom gosto, lançado em 1992. Fiquei surpreso em perceber que uma boa parte da narrativa desta mulher inteligente, elegante e divertida ficou datada por conta das mudanças tecnológicas e da evolução de hábitos. A começar pela capa: Danuza Leão aparece segurando um cigarro, em uma imagem que hoje em dia seria totalmente massacrada nas redes sociais.
Ao reler a apresentação do jornalista Eduardo Logullo (que suspeito ter sido o ghost-writer desta publicação), chama a atenção uma frase: “Talvez com a função de servir de antídoto, Na sala com Danuza sai no momento mais mal-educado do Brasil”. Naquela época, isso fazia todo o sentido. Mas o que parecia ser uma grosseria em 1992 é uma espécie de padrão no mundo de hoje. Civilidade e polidez, no universo regido pelas redes sociais, é artigo raro.
Alguns tópicos, caso o livro fosse escrito hoje, não seriam nem listados. Há um trecho que fala sobre a necessidade de se portar algum dinheiro físico para pagar determinadas despesas, como um táxi. Hoje, pouquíssimas pessoas trazem notas consigo (talvez eu seja um desses que insistem em andar com dinheiro na carteira) e quase todos pagam suas despesas com o celular e seus cartões virtuais.
Quando fala sobre empréstimos (de objetos, não de grana), Danuza pondera o seguinte: “Não pense que livros, discos, filmes de vídeo, não precisa devolver. É claro que precisa. E na hora de devolução que tal oferecer um livro ótimo que você acabou de ler?”. Bem, hoje tudo está na nuvem e virou aplicativo. Em vez de livros físicos, temos as versões digitais no Kindle; os discos deram lugar ao Spotify; os serviços de streaming substituíram os antigos VHS.
Ao discorrer sobre pessoas que não vão embora de uma festa, ela sugere que os anfitriões tentem os seguintes truques: esconder a bebida, dizer que o gelo acabou ou colocar uma vassoura atrás da porta de cabeça para baixo e sal no fogo. E se nada disso funcionar? “Então você põe aquele disco de forro sacudido, comprado especialmente para essa finalidade. O som, no volume máximo. Deve funcionar”. Bem, se esse expediente fosse usado hoje, especialmente entre os mais jovens, aí que a festa não iria acabar.
Há um capítulo sobre correspondência. Mas não havia ainda o hábito de mandar e-mail, WhatsApp ou mensagem pelo Insta. A tal correspondência era mesmo por carta – algo praticamente extinto nos dias de hoje. Mas há uma dica interessante neste tópico: a grafia de nomes. “Cuidado com escreve o nome das pessoas. Para alguns, trocar um s por um z, um y por um i é ofensa grave”. Essa regra, infelizmente, não vale para mim. Meu nome tem vida própria: Aluísio, Aloísio, Aluysio, Aloizio – as variações são quase infinitas. Quando acertam a grafia do meu epíteto (com “u”, “i” e “z”, sem acento no primeiro ‘i”), fico até emocionado…
Vamos citar apenas mais um anacronismo, pois a paciência dos leitores tem limite. Quando Danuza fala sobre trabalho, solta uma pérola que deixaria os adeptos do mimimi de cabelo em pé: “E não venha com a história de ‘meu chefe implica comigo’. Nunca houve um chefe que implicasse com um bom funcionário que trabalha bem e não cria caso. Faça uma autocrítica e pense se isso não passa de desculpa para você mesma”. Imagine esse trecho lido por algumas pessoas que você conhece nos tempos atuais.
Nem tudo que ela escreveu, porém, ficou demodê (para usar uma palavra que ficou fora de moda). Danuza era uma pessoa sensata e não tinha vergonha de assumir seus defeitos. Era querida por todos, carismática e arguta. E nos brindou com essa pérola de sabedoria: “E se, depois do livro publicado, começarem a me cobrar um comportamento irrepreensível? Logo de mim, que às vezes sou tão malcriada? Não sei. Mas também não devemos levar as coisas tão a sério. Vamos procurar ter uma boa vontade conosco e com os outros. Compreender que às vezes as pessoas não agem como deveriam, acontece. Ria de você mesmo quando fizer uma bobagem. […] Gentileza não é artigo de luxo, mas sim de primeira necessidade”.
Palavras preciosas, que precisam ser lidas e absorvidas por muitos de nós.
P. S.: Escrevi sobre Danuza em duas ocasiões. Confira:
