A sessão realizada ontem no Supremo Tribunal Federal foi o início de um conflito de proporções nucleares entre os dois grupos antagônicos dentro da corte. O que sairá desta caixa de Pandora vai deixar brigas do passado, como aquela entre Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso (“pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”), no nível de um bate-boca de criancinha.
O modo “matar ou morrer” pode levar o Supremo a um haraquiri moral coletivo, ao desnudar eventuais deslizes de ambos os grupos. O instinto de sobrevivência pode ser substituído pelo desejo de matar o adversário. O problema é que, neste processo, os dois lados podem ser varridos do mapa devido ao alto poder de destruição das autoridades jurídicas.
Independente de quem tem razão neste embate, o fato é que Alexandre de Moraes reinou soberano no STF durante muito tempo sem que ninguém contestasse sua autoridade. Mendonça foi o único a questionar Moraes e, com isso, atraiu a ira do ex-relator do inquérito das Fake News e de seus apoiadores, os colegas Gilmar Mendes e Flávio Dino.
O que se viu na sessão de ontem, porém, foi um Mendonça acuado, hesitante e inseguro. Fachin sem liderança. E Luiz Fux apagado (Nunes Marques nem entrou em campo, alquebrado pelos vazamentos envolvendo seu nome no caso Master). Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino, porém, estavam desenvoltos como nunca. Gilmar e Moraes, por sinal, perceberam a hesitação alheia e partiram para uma deselegância agressiva. Com isso, conseguiram abater o moral da tropa adversária.
Com o desfecho da sessão de ontem, assou-se uma pizza temporária, com o pedido de vista de Dino. Isso vai atrasar todo o processo e já abriu uma saída para o caso de Mendonça sofrer algum revés na semana que vem: repetir a estratégia de Dino pode ser uma saída caso a votação coloque o ministro indicado por Jair Bolsonaro em risco.
E como isso pode influenciar as eleições?
Segundo pesquisa Quaest realizada entre 10 e 13 de setembro, 67% responderam que essa crise no STF que não influenciar a escolha do candidato a presidente. Mas 7% disseram estar considerando mudar de voto por causa disso — um recorte pequeno, mas relevante, uma vez que a eleição de 2026 deve ser decidida por margens reduzidas.
Há um consenso entre os analistas políticos de que o esforço empreendido por Dino e Mendes para proteger Moraes incomoda uma boa parcela da população brasileira. E, como o adversário de Mendonça é o algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro, há uma chance de o conflito ser benéfico para o candidato de oposição, Flávio Bolsonaro.
O que está em jogo, portanto, vai muito além do prestígio pessoal de Moraes ou Mendonça. A corte inteira corre o risco de sair desse embate com a autoridade corroída perante a opinião pública. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem hoje o interesse mais evidente em conter os danos. Uma guerra pública dentro do STF adiciona ruído a um cenário eleitoral que já caminha para uma disputa feroz pela pequena quantidade de votos decisivos. Flávio Bolsonaro, por outro lado, tem tudo a ganhar com o desgaste do homem que perseguiu seu pai. Cada semana de escândalos no Supremo é uma semana em que ele cresce sem precisar dizer uma palavra.