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A IA pode ajudar a construir sua reputação?

Aluizio Falcão Filho
11 de setembro de 2026

Em uma palavra, a resposta é “não”. Atualmente, a Inteligência Artificial é um atalho para obter informações ou automatizar processos manuais. Por isso, até pode ajudar a amealhar dados e subsídios para construir repertório ou pesquisar sobre prospects e pessoas interessantes que se somariam ao seu portfólio de contatos. Mas é só.

Recentemente, MONEY REPORT realizou um evento sobre inovação. E uma frase de Guga Stocco, da Futurum Capital, ficou na minha mente: “Antes, éramos avaliados por aquilo que podíamos executar; agora, com a IA, seremos analisados pela nossa capacidade de planejar”. Diante de um mundo que vai automatizar cada vez mais a execução que não tenha valor agregado, isso faz total sentido.

Portanto, se você quiser criar algo com densidade, que se destaque, o caminho correto é o seu próprio cérebro – ou o dos outros (desde que os insights alheios não sejam de domínio público). Se você trilhar o caminho ditado pela Inteligência Artificial, irá trafegar pela estrada da mediocridade, já que a ferramenta vai buscar ideias que já circulam há algum tempo. E ninguém constrói reputação sendo mediano ou previsível.

Isso não quer dizer que a IA não possa servir para melhorar seus ativos em campos nos quais você é ruim. Essa é a vantagem dessa ferramenta. Ela consegue elevar instantaneamente o seu nível de baixo para médio. Vamos supor que você tenha reais dificuldades para escrever. Qualquer agente vai te oferecer uma solução imediata para sua necessidade. Mas dificilmente um texto gerado por IA vai impressionar os verdadeiros decision makers.

Vamos explorar um pouco o cérebro alheio para nos aprofundar um pouco nessa questão. Mais especificamente, a mente do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Em 1930, ele publicou o livro “A Rebelião das Massas”, uma coletânea de artigos publicados no ano anterior. Nesta publicação, ele dividia a humanidade em dois grupos.

O primeiro era o “homem-massa”: na definição de Ortega y Gasset, é aquele que não exige nada de especial de si mesmo. Viver, para ele, é ficar na mesma e não se aperfeiçoar. Essa não exatamente é uma categoria socioeconômica. O homem-massa está satisfeito consigo seja ele rico ou pobre. Não sofre e não se cobra. Além disso, é uma pessoa que se sente com muitos direitos e poucos deveres. Ortega usa uma metáfora interessante para definir este indivíduo: uma boia à deriva, que flutua e é levada pela corrente. Esta pessoa, ao ser levada pela correnteza, é guiada; mas tem a ilusão de que, ao flutuar, é livre para fazer o que quiser.

Na outra ponta, Ortega introduz o conceito de “homem seleto”. Trata-se de quem exige de si muito mais do que o mundo lhe cobra. E continua seleto mesmo quando fracassa em cumprir as exigências que se impôs. Ortega diz que o homem seleto não se sente superior por vontade, ele se sente obrigado a ser diferenciado, como se a autoexigência fosse uma vocação. Este indivíduo não acorda decidindo ser excelente, ele levanta da cama se sentindo devedor.

O escritor espanhol talvez dissesse que, no mundo atual, este homem seleto não deveria usar jamais a IA. Mas não sejamos radicais neste quesito. Afinal, o sucesso de qualquer pessoa sempre vai depender do uso da tecnologia. Antes de pensar em como a Inteligência Artificial pode ajudá-lo, porém, é preciso entender qual é o papel que você quer desempenhar na sociedade: se for o de um protagonista, terá de se dedicar a produzir ideias e conceitos. Tentar enveredar por caminhos inéditos e originais, mesmo que use inspiração de ideias alheias. Seja uma fonte primária de insights, não um repetidor dos pensamentos de terceiros.

E exigir o máximo de si mesmo, sem depender dos outros (ou da IA) para formular seus próprios conceitos. Se questionar e exigir o máximo de si mesmo, ainda que os outros não percebam isso. Como Rick Blaine, o personagem de Humphrey Bogart em “Casablanca”.

Rick passa quase todo o filme provando que não deve nada a ninguém e não se importa com o que acontece à sua volta. Mas, no fim, entrega os salvo-condutos ao líder da resistência aos nazistas, abre mão da mulher que ama e ainda a convence de que a decisão foi dela. Age contra o próprio interesse, sem plateia, e recusa o crédito. É isso que separa o homem seleto do medíocre esforçado: não a vitória, mas a norma que ele obedece quando ninguém está olhando. Nenhuma máquina vai fazer isso por você. A IA entrega o que já existe e faz isso muito bem. O que se pode transformar com palavras e atos é o desafio que faz qualquer protagonista vibrar. E você? É esse protagonista?

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