Dois textos publicados na edição de ontem da “Folha de S. Paulo” têm uma profunda conexão entre si, embora sejam separados por quinze páginas. O primeiro é o editorial denominado “Irresponsabilidade fiscal agrava concentração de renda”. O raciocínio é cirúrgico e reflete a crítica de vários economistas liberais: o desprezo pelo controle das despesas públicas pressiona a inflação; para combater a alta dos preços, o Banco Central eleva os juros; com juros altos, quem tem capital é beneficiado e tem seu patrimônio financeiro anabolizado; com isso, a concentração de capital na mão dos mais ricos só aumenta.
Os editorialistas da “Folha” usam números do economista Sérgio Gobetti para ilustrar este fenômeno: em 2024, a “parcela detida pelo milésimo mais abonado da população [é estimada] em 13,1%, ante 10,2% em 2020. Quase um terço da variação recente seria atribuível à renda financeira”. O texto também aponta o crescimento da dívida pública entre 2022 e 2026, de 71,7% para 82,5% do PIB. “A incerteza provocada por essa escalada, ao lado das pressões inflacionárias resultantes dos gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contribui para a alta dos juros”.
O segundo texto é uma tradução da revista “The Economist”, sob o seguinte título: “Primeira fase da onda woke era sobre identidade; a segunda é sobre classe”. O artigo versa sobre a onda de populismo econômico que está tomando conta da esquerda americana, prometendo salários mais altos, preços mais baixos e planos de saúde mais acessíveis. Foi justamente essa tendência que ajudou a eleger o prefeito de Nova York, Zohran Mamdami, filiado ao Partido Democrata e membro do DAS (Socialistas Democráticos da América).
O texto cutuca também a esquerda caviar americana, ao mostrar que o copresidente do diretório nova-iorquino do DAS, Gustavo Gordilho, mora em um apartamento de US$ 1,5 milhão, pago pelos pais, estudou arte e literatura na Universidade de Yale (custo total de US$ 400.000) e dirige um Porsche prata. A ironia fina do “Economist” aparece no trecho a seguir: “Esse é um jogo antigo. Desde que Karl Marx contou com Friedrich Engels não apenas para suas ideias sobre o comunismo, mas também com uma fortuna de sua família no setor têxtil, esquerdistas têm se alimentado dos ricos”.
Voltando à questão econômica: o novo populismo woke depende de subsídios econômicos que fatalmente ampliarão os índices de irresponsabilidade fiscal, criando inflação e pressionando os juros para o alto. Os efeitos deste movimento, assim, são óbvios e previsíveis.
Mas a coisa não termina por aí. Vejamos o que fez o prefeito nova-iorquino ao assumir o cargo. Ele criou a chamada “pied-à-terre tax”, um imposto anual sobre segundas residências de luxo avaliadas acima de US$ 5 milhões cujos proprietários não vivem permanentemente na cidade, com o objetivo declarado de arrecadar cerca de US$ 500 milhões por ano com os “mais ricos entre os ricos”. A medida entrou em vigor em julho e já provoca efeitos negativos.
Segundo projeção do portal de notícias Empire Report New York, o imposto deve eliminar cerca de 1,4 milhão de metros quadrados relativos a novos imóveis na próxima década. Isso significa a erradicação de 10.000 vagas de trabalho na construção civil, afetando carpinteiros, eletricistas, encanadores e técnicos de elevador, além de efeitos indiretos sobre porteiros, zeladores, seguranças e comerciários que dependem do fluxo gerado por esses empreendimentos.
Já no campo dos dados concretos, a corretora Douglas Elliman registrou uma desaceleração real no mercado de condomínios de luxo durante o segundo trimestre, atribuída à demora da prefeitura em detalhar as regras da cobrança: o segmento de imóveis com preço acima de US$ 10 milhões praticamente congelou no início de julho, com apenas um contrato fechado nessa faixa entre os dias 6 e 12 daquele mês, ante uma média normal de cinco negócios por semana.
Como se pode ver, a combinação de irresponsabilidade fiscal e populismo econômico pode causar efeitos práticos perniciosos aos mais pobres. Está na hora de mostrar à população brasileira as consequências do que um modelo econômico equivocado (disfarçado por um discurso de justiça social) pode trazer às camadas mais carentes da população.
O que está em jogo, portanto, não é apenas uma disputa entre esquerda e direita sobre quem deve pagar a conta do Estado, mas a repetição de um padrão que a economia já documentou fartamente: impulsos fiscais, financiados por dívida crescente e impostos punitivos sobre capital e propriedade, esfriam investimento, travam a oferta de moradia e destroem empregos justamente na ponta mais vulnerável da cadeia produtiva. Nova York oferece, em tempo real, um laboratório do que o Brasil já experimenta em versão crônica desde 2023: promessas de justiça social bancadas por expansão fiscal sem lastro, que no fim descarregam seu custo real sobre quem menos tem estrutura para absorver a perda de renda ou de emprego. Entre o discurso generoso e o resultado prático, a distância costuma ser cruel e é essa distância que tanto Lula quanto Mamdani parecem dispostos a ignorar enquanto durar o aplauso de suas claques.