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O que dá mais retorno, soberania ou indignação?

Aluizio Falcão Filho
8 de setembro de 2026

No dia de ontem, os dois candidatos à presidência que lideram as pesquisas eleitorais resolveram explorar o dia da Independência de maneira diferente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu embarcar no bonde da soberania nacional, movido pelos recentes movimentos tarifários de Donald Trump em relação ao Brasil. Com isso, espera ele, sua candidatura vai sensibilizar os indecisos e independentes que enxergam em seu principal opositor um aliado do presidente americano.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, passou o dia 7 de setembro, em eventos presenciais ou através de intervenções digitais, batendo na mesma tecla – a de que o ministro Alexandre de Moraes deve sofrer impeachment e deixar sua cadeira no Supremo Tribunal Federal. Com isso, o senador fluminense insuflou a indignação de muitos eleitores que criticam o juiz do STF, envolvido em um escândalo desde que foi revelado que ele tinha uma relação de proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A rejeição ao nome de Moraes, antes, era algo mais restrito ao eleitorado bolsonarista. Após o vazamento de que sua esposa tinha um contrato milionário com o Banco Master, isso começou a mudar. E, desde a semana passada, a maré virou de vez. Hoje, essa repulsa também atinge os eleitores de centro e também setores da esquerda.

Neste duelo eleitoral, o que tem mais apelo junto aos eleitores que vão decidir as eleições do mês que vem, soberania ou indignação?

O debate sobre soberania – algo importante, diga-se – é circunstancial e está ligado a medidas tomadas pela Casa Branca desde meados do ano passado. Trata-se de um tema, porém, que pode desaparecer da pauta assim que Trump deixar o poder ou quando Lula não morar mais no Palácio do Alvorada. Além disso, não é exatamente uma preocupação palpitante junto ao eleitorado.

Já a indignação em relação ao ministro Moraes é um assunto vibrante e que mobiliza multidões. É verdade que a direita tem predileção maior pela questão. Mas Vorcaro tem sido visto desde o final do ano passado como uma espécie de inimigo público número um. Moraes, por sua vez, vem irritando muita gente com seu comportamento solar e, para muitos, autoritário. Quando esses dois personagens são ligados – através de uma colaboração que ainda está nebulosa –, a desconfiança pública gera uma rejeição dupla. E é essa aversão que está sendo explorada por Flávio.

Vamos a alguns números: o monitoramento da consultoria AP Exata revelou que a desaprovação a Alexandre de Moraes nas redes sociais atingiu o pico de 77,5% de menções negativas, reduzindo o apoio ao ministro a um patamar residual entre 3% e 5% após a divulgação do escândalo por André Mendonça. Essa forte rejeição rompeu as bolhas políticas tradicionais e provocou uma crise reputacional sem precedentes, acumulando mais de 62 milhões de registros e interações em menos de uma semana.

O potencial da bandeira levantada ontem pelo senador, assim, parece ser maior do que a de Lula. Difícil de entender por que os marqueteiros petistas embarcaram em um tema que agrada os cidadãos mais intelectualizados, mas sem tanto impacto eleitoral. O. K., é algo que casa perfeitamente com o ideário do dia da independência. Mas haverá algum efeito prático com essa ação? Dificilmente.

A indignação, ao contrário da soberania, tem a vantagem de ser um sentimento visceral, que dispensa contexto histórico ou explicação econômica para ser sentido. Ninguém precisa entender de tarifas, de geopolítica ou da relação entre Brasília e Washington para se indignar com um ministro do Supremo suspeito de proteger um banqueiro enquanto a esposa embolsava milhões. É um enredo simples, quase de novela e por isso atravessa espectros ideológicos com muito mais facilidade do que o discurso sobre soberania nacional. Lula pode até estar certo em defender o Brasil diante de sobretaxas aduaneiras, mas discursos sobre princípios abstratos raramente vencem eleições. Já a indignação, quando bem canalizada, tem histórico comprovado de definir resultados e é justamente esse instinto que Flávio parece ter entendido melhor do que o Palácio do Planalto.

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