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Os gênios musicais do início dos anos 1970

Aluizio Falcão Filho
13 de setembro de 2026

Geralmente, os críticos musicais se referem aos anos 1980 como a era do rock nacional. De fato, nesta época, as rádios foram tomadas por bandas que fizeram muito sucesso e levaram milhares de pessoas a seus shows. Sou uma espécie de testemunha ocular dessa fase: fui deejay da casa paulistana Rádio Clube, por onde se apresentaram todos os grandes nomes do pop nacional. Tive a oportunidade de ver os ícones da década e conviver com eles no backstage: Legião Urbana, Barão Vermelho, Paralamas, Kid Abelha, Magazine, Lobão e os Ronaldos e outros menos votados. Não houve show do RPM no Rádio Clube, mas fui colega de Paulo Ricardo na faculdade e me lembro direitinho de cruzar com ele em um show da banda do Kid Vinil.

Na semana passada, porém, fiquei ouvindo durante o feriado alguns artistas que se destacaram no início da década de 1970 e cheguei à conclusão de que essa foi uma fase dourada do rock nacional, que também rendeu grandes sucessos e dois nomes que explodiriam mais tarde como grandes astros da música brasileira.

Comecei essa odisseia ouvindo os dois discos da banda Secos e Molhados. Mas está enganado quem pensa neste grupo apenas como o veículo que revelou Ney Matogrosso. A voz de Ney, evidentemente, era a marca registrada do trio e sua maior atração. Mas o som arquitetado por João Ricardo e Gerson Conrad é envolvente e complexo, com melodias surpreendentes e fortes. Arranjos vocais estupendos e letras que flutuavam entre o poético e o psicodélico.

João e Gerson eram vizinhos na Bela Vista, bairro paulistano de São Paulo, e formaram um quarteto que se apresentava no bar Kurtisso Negro, no Bixiga. O grupo foi reduzido a uma dupla e a cantora e compositora Luli os convenceu a viajar ao Rio de Janeiro para conhecer um amigo que poderia assumir o microfone do grupo, o artista plástico Ney de Souza Pereira. A química foi boa e a banda foi formada, com Ney adotando o sobrenome artístico de Matogrosso.

O primeiro álbum foi lançado em 1973 e explodiu com “O Vira”. Mas tinha faixas espetaculares, como “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroshima” (poema de Vinícius de Moraes musicado por Gerson Conrad) e “Amor”. Luli foi co-autora de duas faixas, entre as quais “O Vira”. Ela, mais tarde, gravaria “Inteira” com Lucinha, na dupla Luli e Lucinha, que entrou para a trilha sonora da novela “Bravo”.

Este ano também foi o lançamento de “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, que não pode ser chamado de roqueiro, mas fez música jovem com diversas influências, como o samba de morro (ele cresceu no São Carlos, nascedouro das escolas Mangueira, o Salgueiro e a Portela) e o soul americano. Neste LP, temos três tesouros: a música-título, “Estácio, Holy Estácio”, e “Magrelinha”.

No ano seguinte, os Secos e Molhados lançaram seu segundo álbum, também primoroso, com destaques para “Flores Astrais” e “Não, não digas nada”. O som trazia forte influência de bandas inglesas como Genesis, mas com um toque brasileiro (apesar de João Ricardo ter nascido em Portugal e vindo adolescente para cá).

Em 1975, foi lançado um disco que definiria a carreira de uma artista que ganhou nova dimensão com o LP “Fruto Proibido”: Rita Lee. Apesar de um grande sucesso de vendas e de crítica, Rita não gostava muito deste álbum. Quando a apresentei à Editora Globo, num encontro que rendeu seus livros biográficos, tentei conversar com ela sobre esse álbum, mas ela não foi muito receptiva. Provavelmente porque foi logo após sua saída dos Mutantes e porque a parceira com a banda Tutti Frutti não terminou bem.

Temos nesse álbum três parcerias com Paulo Coelho (“Cartão Postal”, “Esse Tal de Roque Enrow” e “O Toque”), uma com o guitarrista Luiz Sérgio Carlini (“Agora Só Falta Você”) e outra com o baixista Lee Marcucci (“Pirataria”). As quatro faixas restantes são de autoria solo de Rita: “Dançar Pra Não Dançar”, “Fruto Proibido”. “Luz Del Fuego” e “Ovelha Negra”.

A produção deste disco foi de Andy Mills, que veio ao Brasil como técnico de som da turnê de Alice Cooper e acabou ficando por aqui (alguns críticos de música da época diziam que ele era namorado de Rita). Seu trabalho, de maneira geral, foi muito bom, embora a bateria tenha sido muito mal gravada e mixada. Mas os solos de guitarra de Carlini (falecido há pouco) são espetaculares.

Aliás, Carlini contou em um documentário que o solo que encerra “Ovelha Negra” veio durante um sonho, com o disco já finalizado. “Ovelha” terminava em fade out, com o piano de Guilherme Bueno, sem guitarra nenhuma. Ele sugeriu adicionar o solo e Andy Mills rejeitou a ideia, pois o disco já contava com várias intervenções dele. Mas ele insistiu tanto que o produtor resolveu ouvir o que ele tinha a apresentar. Só que, secretamente, gravou tudo. Depois que Carlini terminou o solo, Mills disse: “OK, vamos usar”. O guitarrista pediu então para fazer a gravação. Mills rebateu: “Já gravei, vamos usar essa versão mesmo”. Ou seja: o que ouvimos do disco foi uma demo sem grandes pretensões.

Essas histórias, contadas décadas depois por quem viveu cada detalhe delas, mostram algo que os anos 1980 do rock nacional, com toda sua força comercial, dificilmente igualaram: a disposição de artistas ainda em formação para arriscar tudo em nome de uma ideia. Gerson Conrad musicando poemas de Vinícius de Moraes, Luiz Melodia transformando a vivência do morro em soul brasileiro, Rita Lee reconstruindo sua identidade artística logo após o rompimento com os Mutantes e um guitarrista insistindo, contra a vontade do produtor, para gravar o solo que se tornaria um dos mais lembrados da história do rock brasileiro.

Nenhum desses músicos sabia, no calor daquelas sessões de estúdio, que estava criando obras que resistiriam meio século. É essa imprevisibilidade, essa mistura de talento bruto com decisões tomadas quase por teimosia, que faz do início dos anos 1970 um período tão rico quanto qualquer década posterior, mesmo sem o aparato da indústria que consagraria os ícones musicais que seriam consagrados anos depois.

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