Empresa projeta crescer 20% em 2026, amplia presença no atacado e prepara novos sabores para disputar a liderança dos alcoólicos cremosos no país
A bebida de doce de leite que nasceu de uma receita entre amigos em Salvador, em 2018, ficou maior do que o próprio produto. Foi essa percepção que levou a antiga Don Luiz a trocar de nome e assumir, neste ano, a identidade Don Cream. Mais do que uma mudança de embalagem, o movimento sinaliza a intenção da empresa de deixar de ser associada a um único sabor e disputar um mercado quase quatro vezes maior.
A companhia encerrou 2025 com 110 mil caixas de nove litros vendidas e projeta crescimento de 20% neste ano. O faturamento não é divulgado. Segundo Luis Nato, diretor de Marketing e Crescimento (CGO) e sócio da Don Cream, a desaceleração em relação à média histórica de expansão, de cerca de 80% ao ano, é natural diante da escala alcançada pela empresa e das mudanças recentes na marca.
Hoje, a Don Cream está presente em 22 estados e soma 11.250 pontos de venda, além de fábrica em São Paulo. O negócio é comandado por Lucas Rocha, CEO e cofundador; Rafael Medeiros, COO e CFO; e Nato, que entrou na empresa como estagiário em 2019 e posteriormente se tornou sócio.
Apesar do crescimento acelerado, a expansão até aqui foi feita sem dinheiro externo. “A empresa, desde sua fundação, nunca captou dinheiro com investidores externos e, por ora, isso não faz parte dos nossos planos”, afirmou Nato a MONEY REPORT. Segundo ele, a própria operação consegue financiar os próximos passos, embora a companhia continue acompanhando oportunidades do mercado.

O desafio agora é chegar a mais lugares
A distribuição aparece como uma das principais fronteiras para a próxima etapa do negócio. A marca já conquistou posições relevantes em algumas regiões, mas ainda vê espaço para aumentar sua participação em mercados como Minas Gerais e os estados do Sul.
Os dados mais recentes ajudam a mostrar essa diferença regional. Levantamento da empresa baseado na NielsenIQ indica que, no Rio de Janeiro, a participação da Don Cream no atacarejo passou de 15,7% para 25,5% entre junho de 2025 e junho de 2026. No Centro-Oeste, chegou a 29,6%, enquanto o Distrito Federal registrou 38,8%, maior índice da marca no país.
Em Minas Gerais, onde a categoria recuou no período analisado, a companhia afirma ter avançado sua distribuição. São Paulo também é tratado como uma praça ainda em construção: no atacarejo da Grande São Paulo, o market share chegou a 4%, enquanto o interior atingiu 3,9%. No Ceará, a participação saltou de 0,8% para 16%.
Para Nato, o gargalo não está atualmente na produção ou no acesso a capital, mas na ampliação da distribuição comercial. “Já somos líderes em algumas praças estratégicas, mas é importante fortalecer nossa presença onde nossa fatia ainda é pequena”, diz.
A pandemia empurrou a bebida para o supermercado
A trajetória da Don Cream fugiu um pouco do roteiro tradicional das marcas de bebidas. Fundada em 2018, a empresa ainda dava os primeiros passos quando a pandemia fechou bares, festas e restaurantes. Em vez de depender do consumo fora de casa, cresceu apoiada no varejo e no ambiente digital.
Hoje, cerca de 80% da operação está ligada ao grande varejo. A companhia está presente em redes como Pão de Açúcar, Carrefour, Sam’s Club, Atacadão, St. Marche, Zona Sul e Zaffari, além de manter canal próprio de comércio eletrônico.
O atacado é, neste momento, a frente que mais cresce. A expansão em grandes redes nacionais passou a dividir espaço com uma estratégia praticamente inversa àquela dos tempos da pandemia: levar a marca novamente para o mundo físico, em bares, restaurantes e eventos.
“A nossa trajetória foi no caminho inverso do mercado tradicional de bebidas”, resume Nato. A experiência acumulada no varejo e no e-commerce passou a alimentar decisões sobre ativações, distribuição e comportamento do consumidor em diferentes regiões.
Da gôndola para o Carnaval
Carnaval, São João, Réveillon e grandes festas passaram, assim, a ocupar um papel importante na estratégia. No primeiro semestre, a Don Cream registrou aumento de 10% no número de eventos realizados e de 15% no volume de shots consumidos.
Só no Carnaval do Rio, a empresa participou de dez eventos, alcançou mais de 50 mil pessoas e contabilizou o consumo de mais de 65 mil doses. Em São Miguel dos Milagres, em Alagoas, foram outras 11 mil pessoas e mais de 16 mil doses em três dias.
A lógica, porém, vai além de distribuir bebida em festa. A companhia acompanha a conversão de doses em garrafas, o volume consumido, o engajamento digital e o comportamento das vendas no e-commerce e no varejo das regiões onde as ativações acontecem.
“Monitoramos o pico de buscas e vendas no e-commerce e o aumento do sell-out nos supermercados e distribuidores da região nos dias subsequentes”, explica Nato.
Um mercado quase quatro vezes maior
O principal motivo para a troca de Don Luiz por Don Cream está nos números da própria categoria.
Segundo dados da ISCAM citados pela companhia, o mercado brasileiro específico de alcoólicos cremosos com sabor doce de leite movimentou 66 mil caixas de nove litros em 2025. Quando considerados todos os sabores de bebidas alcoólicas cremosas, o volume chega a 256 mil caixas.
Na prática, a empresa passou a mirar um mercado 3,9 vezes maior. E colocou uma meta ambiciosa sobre a mesa: tornar-se líder brasileira da categoria nos próximos dois anos.
O doce de leite, no entanto, não deve perder protagonismo. “Não buscamos reduzir as vendas do nosso carro-chefe, mas somar a ele”, afirma Nato.
A Don Cream Dulce de Leche continuará sendo o principal produto, enquanto novos sabores serão usados para ampliar públicos e ocasiões de consumo. Um novo SKU está previsto ainda para este semestre. A companhia já havia informado que o rebranding manteria elementos reconhecidos pelos consumidores, como a receita, a cremosidade e o urso presente no rótulo.
A recepção inicial à mudança, segundo Nato, foi positiva entre distribuidores e varejistas. A empresa optou por comunicar a alteração com antecedência aos parceiros para reduzir ruídos em uma transição que poderia ser delicada para uma marca construída em torno de um produto bastante reconhecível.
Agora, o plano é fazer o nome novo carregar algo maior do que a antiga “bebida do urso”. Em cinco anos, diz Nato, a Don Cream quer ser reconhecida não apenas pelo doce de leite alcoólico que a colocou nas prateleiras, mas como a principal referência brasileira em bebidas alcoólicas cremosas.
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