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Uma mulher investidora: do tabu ao protagonismo

Carolina Cavenaghi,
para MR
25 de agosto de 2026

O ano é 2026 e de um lado vemos o aumento das ofertas e sofisticação de produto e da quantidade de investidores. De outro, no aspecto cultural, o avanço não acontece na mesma proporção, sobretudo entre mulheres. Para boa parte delas, investir é algo que só se faz depois de cumprir todas as obrigações, “se sobrar” – e nunca sobra. Tal percepção tem raízes históricas, e tomar ciência delas pode redesenhar as próximas gerações.

As mulheres começaram a poder tomar crédito no banco há poucas décadas. Somado a isso, estão anos a fio de mulheres brasileiras sendo educadas para cuidar — da casa, dos filhos, dos pais, do parceiro — e não para acumular patrimônio e construir riqueza. O tema é um tabu – não é discutido ou aprendido. Há um desconforto cultural, quase silencioso, que afasta o tema de investimentos do dia a dia das mulheres.

O efeito disso está no longo prazo, com muitas mulheres só percebendo a falta do investimento quando enfrentam um divórcio, a responsabilidade de cuidar de pais idosos, uma transição de carreira e a aposentadoria. Em outras palavras, é diante de uma necessidade que se percebe pouco patrimônio acumulado, maior dependência financeira e mais vulnerabilidade.

Mas não precisa ser assim.

Para as mulheres, é importante compreender que não é necessário investir sozinha. Tal qual se busca profissionais, como advogados, psicólogos e médicos, também deve-se buscar apoio de um assessor ou consultor para encontrar as melhores alocações. Contar com um profissional de confiança favorece resultados, fortalece decisões e amplia conhecimento.

Mas não é possível terceirizar o próprio futuro. O profissional orienta e o mercado oferece opções, mas a decisão final é sempre da mulher. O empoderamento não está em fazer sozinha, mas em escolher fazer, fazer com consciência, e assumir que a construção do patrimônio, ainda que gradual, é parte do projeto de vida.

Do lado da indústria de investimentos, é preciso adaptar a linguagem. O mercado financeiro ainda se comunica de forma técnica, focada em rentabilidade e performance. Mas investimento não é só número; é projeto de futuro. É a casa que se quer comprar, a segurança na aposentadoria, o curso que se quer fazer, o sabático que quer viver e a liberdade de poder escolher.

O aspecto da representatividade, esse já mais discutido nos últimos anos, também importa aqui. Quanto mais mulheres ocuparem espaços em eventos de finanças e sobre o próprio mercado financeiro — como assessoras, gestoras, educadoras — mais outras mulheres se sentirão autorizadas a participar. Quando mulheres falam sobre dinheiro entre si, algo se legitima. Há mais contexto e identificação.

A boa notícia é que o cenário vem melhorando. As mulheres vêm assumindo as rédeas – por vontade ou necessidade. Segundo o Censo do IBGE, em 2010, 38,7% dos lares brasileiros eram sustentados por mulheres. Em 2022, o percentual cresceu para 49,1%%. Em 2025, pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) com base em dados do IBGE apontou que atualmente 52% dos ladres brasileiros são sustentados por mulheres.

Agora, o próximo passo da travessia do tabu ao protagonismo é entender que independência financeira não é apenas ganhar o próprio dinheiro. É ter meios para acessar informações e saber o que fazer com o dinheiro. É decidir, conversar, planejar e agir. É transformar renda em patrimônio e, por fim, patrimônio em liberdade de escolha.

Olhar para o próprio dinheiro exige permissão interna. Exige aceitar que cuidar do patrimônio não é egoísmo, é responsabilidade. É um ato de autocuidado e de visão de futuro inclusive sobre seu papel na sociedade.

Por fim, investir não é luxo. É ferramenta. É possibilidade. É acessível. E, sobretudo, é liberdade estruturada. É preciso tirar mulheres da “zona de sobrevivência” e estimular escolhas e a tomada de consciência, desta vez sobre sua potência como investidora.

Carolina Cavenaghi é fundadora e CEO da Fin4She, plataforma que conecta e impulsiona mulheres

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