Liderado por Luiza Helena Trajano, o Summit Mulheres nas Profissões marca a virada da agenda: de preparar mulheres para ocupar espaços a transformar os espaços para recebê-las
Durante muitos anos, a conversa sobre carreira feminina esteve concentrada em uma ideia quase incontestável: preparar mulheres. Era preciso estudar mais, desenvolver liderança, aprender a negociar, melhorar a comunicação, ampliar networking, vencer a síndrome da impostora e aprender a se posicionar. Criamos cursos, livros, mentorias, congressos e uma indústria inteira dedicada a formar mulheres mais confiantes, qualificadas e prontas para ocupar espaços.
Funcionou. E justamente por isso chegou a hora de avançar a conversa.
Preparadas. Até demais.
Hoje encontramos uma geração de mulheres altamente qualificadas, empreendedoras, conectadas e economicamente ativas, mas seguimos com uma presença feminina muito menor justamente nos ambientes em que orçamento, estratégia, investimento, contratação e futuro são decididos.
A pergunta, portanto, começa a mudar. Em vez de discutir indefinidamente o quanto uma mulher ainda precisa estar pronta, é mais produtivo perguntar o quanto as organizações, os mercados e as estruturas de poder estão preparados para que ela chegue.
Foi essa sensação que atravessou o Summit Mulheres nas Profissões, realizado pelo Grupo Mulheres do Brasil e liderado por Luiza Helena Trajano. Mais do que reunir mulheres em torno de histórias inspiradoras, o encontro pareceu marcar um estágio importante de amadurecimento dessa agenda, em que protagonismo feminino começa a deixar o território exclusivamente simbólico para ganhar contornos institucionais, econômicos e mensuráveis.
Durante anos falamos sobre empoderamento. Agora começamos a falar, com mais clareza, sobre poder.
Elas já fazem acontecer
O próprio nome do Summit carrega uma constatação importante: elas já fazem acontecer.
As mulheres representam cerca de 43% das pessoas ocupadas no Brasil e cerca de 34% dos donos de negócios do país. Estão criando empresas, comandando equipes, produzindo ciência, desenvolvendo produtos, movimentando consumo e participando ativamente da economia.
O contraste aparece quando seguimos esse caminho até os lugares onde o poder se concentra. Segundo o Panorama Mulheres 2025, apenas 17,4% das presidências das empresas analisadas eram ocupadas por mulheres. Nos conselhos de administração, elas representavam 17,1% das cadeiras e, em mais da metade dos conselhos pesquisados, não havia mulher alguma.
Ou seja, mulheres participam em larga escala da engrenagem econômica, mas essa presença diminui à medida que nos aproximamos das posições que definem para onde essa engrenagem irá.
É justamente por isso que a completude da programação do Summit importa. Mulheres ocuparam discussões sobre tecnologia, saúde, ciência, educação, indústria, agronegócio, sustentabilidade, inteligência artificial e futuro do trabalho. Durante muito tempo, mulheres foram chamadas para falar sobre mulheres. Agora precisam estar também discutindo economia, capital, inovação e futuro, e principalmente participando da definição de tudo isso.
A meta agora tem número
Luiza Helena Trajano colocou essa ambição em uma meta concreta ao defender 50% de mulheres em posições de liderança até 2030.
Metas com números têm uma vantagem importante: retiram a discussão do confortável campo das boas intenções.
É relativamente simples dizer que uma empresa acredita em diversidade ou valoriza lideranças femininas. Outra coisa é olhar para a composição real da gestão, dos conselhos e das posições executivas. Quando existe uma meta, existe também uma métrica, e métricas têm a inconveniente capacidade de revelar a distância entre discurso e prática.
É nesse ponto que a conversa deixa de ser conceitual e passa a ser institucional.
O problema pode não ser confiança
Durante muito tempo, boa parte da discussão sobre carreira feminina partiu de uma premissa curiosa: se mulheres não chegavam ao topo, talvez ainda precisassem desenvolver alguma competência. Aprender a negociar melhor, falar com mais segurança, assumir riscos, pedir aumento, mostrar resultados ou se posicionar com mais firmeza.
Mas existe um limite para a tese de que desigualdade pode ser resolvida aperfeiçoando indefinidamente quem já vem se preparando há décadas.
Em 2024, mulheres recebiam, em média, o equivalente a 78,6% do rendimento dos homens, embora sua jornada média de trabalho remunerado correspondesse a cerca de 90% da masculina.
Temos dedicado energia demais tentando ensinar mulheres a caber nesses espaços e energia de menos transformando os próprios espaços.
Nenhuma quantidade de desenvolvimento pessoal substitui estruturas de oportunidade, processos de promoção justos, acesso a capital, indicação, patrocínio profissional e presença nos ambientes em que as carreiras realmente avançam.
Networking também é infraestrutura
É por isso que um dos aspectos mais interessantes do Summit esteve na combinação entre conteúdo, networking, oportunidades e negócios.
Carreiras não são construídas exclusivamente por competência. Elas também avançam por conexão, indicação, visibilidade e relacionamento com pessoas capazes de abrir uma porta concreta.
Por décadas, homens construíram redes profissionais extremamente eficientes por meio de associações, conselhos, clubes, encontros e outros espaços nos quais negócios naturalmente circulavam. Fortalecer redes femininas, portanto, não é apenas exercício de pertencimento. É construir capital social, profissional e econômico.
Quando mulheres encontram pessoas que podem contratar, indicar, investir, conectar, comprar ou abrir mercados, a rede deixa de ser apenas inspiração e passa a funcionar como infraestrutura de crescimento.
Poder também é dinheiro
Essa discussão fica ainda mais evidente quando olhamos para o empreendedorismo feminino.
Criatividade, talento e coragem nunca foram exatamente o problema. O ponto de inflexão aparece quando é preciso transformar uma boa ideia em uma companhia capaz de ganhar escala, acessar distribuição, ampliar produção e construir patrimônio.
Um levantamento com dez das maiores gestoras de venture capital no Brasil — metade das 20 com mais aportes em 2023, segundo a ABVCAP — mostrou que, entre 901 startups investidas, 19,5% tinham mulheres entre os fundadores. Quando olhamos para o dinheiro, porém, a participação cai ainda mais: dos R$ 1,49 bilhão aportados, apenas 11,83% chegaram a startups com fundadoras mulheres.
E não se trata apenas de escassez de pipeline: segundo a Abstartups, cerca de 19,7% das startups brasileiras são fundadas por mulheres — uma proporção próxima dos 19,5% que já chegam aos portfólios. O descompasso, portanto, não está em quem empreende, mas no capital que decide: quase uma em cada cinco startups investidas tinha uma mulher entre os fundadores, e mesmo assim elas receberam pouco mais de um em cada dez reais investidos.
Isso importa porque existe uma distância considerável entre empreender e construir uma grande companhia, e é nessa distância que capital, rede e acesso fazem enorme diferença.
Falar de liderança feminina sem falar de dinheiro, portanto, produz uma discussão incompleta. Importa saber quem cria negócios, mas também quem recebe investimento, quem escala, quem constrói patrimônio e quem, depois, chega ao outro lado da mesa para decidir onde o capital será colocado.
A próxima revolução precisa delas
A inteligência artificial e as novas tecnologias tornam essa conversa ainda mais urgente.
Estamos atravessando uma profunda transformação do mercado de trabalho e seria um contrassenso entrar em uma nova era repetindo exatamente os desequilíbrios da anterior.
Se mulheres não participarem das decisões sobre dados, algoritmos, produtos, tecnologia e inovação, corremos o risco de criar sistemas extremamente modernos capazes de reproduzir desigualdades bastante antigas. Uma eficiência tecnológica admirável, convenhamos, para um resultado nada inovador.
Por isso, a presença feminina nas discussões sobre ciência, tecnologia, IA e futuro do trabalho durante o Summit não é detalhe de programação. Não basta participar da próxima revolução como usuária. É preciso participar também de sua arquitetura.
De movimento para instituição
É justamente por isso que o Summit pode ser entendido como algo maior do que um grande encontro de mulheres.
Movimentos começam criando consciência, linguagem, comunidade e referências. Em algum momento, porém, precisam se transformar em meta, indicador, investimento, contratação, promoção, governança e negócio.
Sem essa evolução, correm o risco de permanecer eternamente no território confortável da inspiração.
O que parece emergir agora é justamente essa passagem. O protagonismo feminino deixa de ocupar exclusivamente o território simbólico e começa a disputar o território institucional.
Não basta celebrar mulheres extraordinárias. Precisamos construir sistemas nos quais mulheres extraordinárias deixem de ser exceção.
Agora começa o poder
Quando colocamos os números lado a lado, a história fica bastante clara: mulheres sustentam a economia desde a base — no trabalho, nos negócios, no consumo — mas essa presença se dissolve conforme o olhar sobe em direção às decisões.
As mulheres chegaram ao mercado. O desafio agora é chegar, na mesma proporção, ao poder.
Durante anos pedimos que estudassem, trabalhassem, empreendessem, se qualificassem, criassem redes e acreditassem mais em si mesmas. Elas fizeram tudo isso e continuam fazendo.
Talvez tenha chegado a hora de empresas, investidores, instituições e mercados avançarem também.
Avançar, neste caso, tem forma: metas de composição em conselhos, cláusulas de diversidade nos mandatos de investimento e capital efetivamente dirigido a fundadoras. Mecanismos, não apenas discurso.
O maior legado de um encontro como o Summit está justamente no caminho que ele ajuda a institucionalizar. Um caminho no qual deixamos de perguntar se as mulheres estão prontas, porque elas estão, e começamos a perguntar se as empresas, os investidores e as estruturas de poder também estão.
O empoderamento teve um papel fundamental ao mostrar a uma geração inteira de mulheres que determinados espaços também lhes pertenciam.
Agora começa a próxima etapa.
Transformar pertencimento em presença, presença em decisão e decisão em poder.
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Respostas de 2
Extremamente necessária essa interpretação e a necessidade de sair do discurso para ferramentas que mudam os números e a história!
A summit foi um momento único! Que poderoso ver o comprometimento de tantas mulheres que apoiam outras e estão transformando a história.
Que venham mais encontros, mentorias e mudanças!