Desert Women Summit, o encontro de mulheres no Marrocos que prova que as conversas mudam de qualidade quando o contexto se torna mais poderoso que a pauta.
Há algo que acontece quando você coloca lideranças empresariais num contexto que elas não controlam. O ambiente força uma honestidade que salas de conferência com carpete bege e café de cortesia raramente produzem. Isso eu aprendi no Desert Women Summit e não foi o que eu esperava aprender.
O DWS não é um evento sobre mulheres no deserto. É um experimento de diplomacia empresarial disfarçado de agenda feminina. E é justamente esse disfarce que o torna eficaz. Por trás dele está Janaína Araújo: mulher do sertão, nascida em Cajazeiras (PB) e criada em Caicó (RN), estrategista de destinos e CEO da Lékè. O formato já tinha rodado cinco edições no circuito europeu; foi ela quem o trouxe para o Brasil e quem enxergou que o deserto marroquino não era cenário, mas argumento.
Tornando esse um experimento que vai além da logística e evento. É pura visão estratégica.
O contexto como argumento
A proposta nasce dentro de uma estrutura real: a União Nacional das Mulheres do Marrocos (UNFM), fundada em 1969 por iniciativa do rei Hassan II com a missão de ampliar o acesso das mulheres marroquinas à educação, ao empreendedorismo e à autonomia econômica, além de combater, de forma estruturada, a violência contra mulheres e meninas. Hoje, é presidida pela princesa Lalla Meryem, filha mais velha de Hassan II. Quando uma instituição com esse peso histórico se faz presente num encontro no sul do país para debater o papel das mulheres nos negócios, ela não está apenas organizando um evento. Ela está construindo uma cena. E toda cena carrega uma tese.
E essa tese é incômoda, no melhor e mais amplo sentido possível.
Porque falar de autonomia econômica feminina, de protagonismo e de ruptura de estruturas enquanto se está num contexto geopolítico onde essas mesmas discussões têm outro peso histórico esse atrito não é falha de curadoria: é o ponto central. O desconforto cultural que o DWS provoca é o mecanismo que força as lideranças presentes a sair do script. A linguagem do empoderamento, já tão desgastada nos círculos corporativos ocidentais, simplesmente não funciona quando você está diante de quem constrói economias locais com as próprias mãos, sem palco e sem manuais de autoajuda.
Diplomacia empresarial não é cortesia
O que a maioria das empresas ainda trata como relações institucionais, participar de eventos, fotografar ao lado de autoridades, assinar memorandos, é na verdade uma das formas mais subutilizadas de poder no mundo dos negócios. Diplomacia empresarial é estratégia. E o DWS entende isso com uma clareza que muitas câmaras de comércio deveriam invejar.
Reunir no mesmo espaço lideranças de países, sistemas políticos e referências culturais diferentes para falar de um tema que nenhuma delas pode se dar ao luxo de ignorar a ascensão econômica das mulheres: é uma jogada de soft power de altíssima sofisticação. Não porque o assunto seja polêmico, mas porque a conversa só funciona se for real.
Por ali já passaram Luiza Trajano, Chieko Aoki, da Blue Tree Hotels, e Nina Silva; a edição mais recente reuniu cerca de 50 empresárias brasileiras. E aqui está o paradoxo produtivo do DWS: o contexto exige realidade. Você não consegue ser genérico diante de uma cooperativa. Você não consegue citar dados de relatório quando está olhando nos olhos de quem esses dados representam.
O que muda quando o contexto muda
Essas iniciativas reescrevem a gramática da discussão feminina quando reúnem líderes de setores públicos e privados, quando colocam a artista e a engenheira na mesma sala — algo que os fóruns tradicionais ignoram. Geram fricção, e é essa fricção que possibilita o debate, sempre ornamentado pela realidade dura de onde estamos.
A discussão sobre mulheres nos negócios foi sequestrada, nos últimos anos, por uma estética de protagonismo que privilegia o conforto: palcos bem iluminados, painéis com porta-vozes que já converteram a experiência em storytelling, aplausos em momentos previsíveis. O resultado é uma conversa que emociona, mas raramente perturba.
O DWS perturba, porque não permite que as presentes assumam o papel de especialistas num tema que, naquele contexto, elas só entendem parcialmente.
E é na vulnerabilidade que as relações se constroem. Lá ouvi sobre política pública, sobre direito e sobre, pasmem, o mercado de construção civil. Eu achava que não era da minha área; até perceber que, na verdade, a minha área é a mesma de todas: humanos que se relacionam através de papéis organizados na sociedade, mas que no fundo são humanos. Ou melhor: mulheres. Foi raro, inesperado e necessário.
A surra de areia que o deserto me deu
Na minha primeira edição, fui acampar no deserto achando que viveria a maior experiência turística da minha vida. O deserto me corrigiu com força — literalmente.
A tempestade de areia não pede licença: chega invisível, dói e desfaz qualquer plano com uma eficiência que nenhum imprevisto corporativo imita. Não há reunião de crise nem plano B que funcione quando a natureza decide que é ela quem manda. Você para. Você espera. E entende, com o corpo, o que o vocabulário de liderança tenta ensinar com slides: resiliência não é um conceito — é uma sensação. E, posso confirmar, é dolorida.
Foi a tempestade que me fez entender por que o deserto é o ambiente certo para essas conversas: ele não negocia. Ele equaliza. Diante dele, cargo, currículo e estratégia são detalhes — e o que sobra é o essencial. Você não controla tudo. Mas pode fazer o melhor com o que tem em mãos.
A cooperativa como medida de todas as coisas
Quando o grupo visita uma cooperativa da rede apoiada pela UNFM, o que está em jogo não é turismo social — é uma calibração. Os números ajudam a dimensionar o que se vê: a associação credenciada pela UNFM na região de Drâa-Tafilalet, liderada pela presidente Sanaa Kandoussi, forma mais de 350 mulheres por ano em costura, bordado, agricultura e agro alimentação; acolhe mais de 200 vítimas de violência com apoio psicológico e jurídico; acompanha mais de 80 negócios liderados por mulheres, conectando-os a redes de financiamento e comercialização.
A visita coloca no mesmo plano duas realidades que raramente se encontram fora de documentários: a executiva com agenda cheia e a agricultora com acesso limitado a crédito. E esse encontro exige de ambas uma revisão de premissas. A executiva percebe que as ferramentas que ela vende como solução — acesso a mercados, digitalização, capacitação — são necessárias, mas não suficientes quando não existem estruturas de suporte que as tornem acessíveis. A agricultora, por sua vez, ganha visibilidade num circuito que raramente olha para onde ela está.
Essa troca não resolve nada de imediato. Mas muda a qualidade das perguntas que cada uma carrega de volta para casa. E mudar a qualidade das perguntas é, em geral, o primeiro passo para mudar a qualidade das respostas.
No fim, o que empresas deveriam aprender com isso
A diplomacia empresarial eficaz não é a que busca consenso. É a que cria condições para que conversas difíceis aconteçam com o nível certo de seriedade. Eventos como esse mostram que é possível usar o desconforto cultural como instrumento — e reunir lideranças globais em torno de um tema sem oferecer respostas prontas, mas um contexto que force cada uma a chegar às suas próprias conclusões: mais honestas, mais situadas, mais úteis.
Isso exige coragem curatorial. Exige abrir mão do controle sobre a narrativa. E exige aceitar que o melhor resultado de um evento não é o relatório que se publica depois, mas a pergunta que cada participante leva consigo quando volta para o escritório.
Parti para uma viagem em grupo, voltei de um encontro comigo mesma. E essa inversão faz toda a diferença.
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Respostas de 3
Um dos projetos mais incríveis e transformadores que já fiz parte!
Uma matéria brilhante, que compreendeu a essência do DWS para além da experiência.
O Marrocos e o deserto são parte de uma escolha estratégica: aproximar realidades, provocar novas perspectivas e transformar a qualidade das conversas.
E nada disso teria a mesma profundidade sem o trabalho da UNFM, cuja atuação concreta pela autonomia, proteção e desenvolvimento das mulheres marroquinas nos lembra que impacto não se constrói apenas no discurso, mas na ação.
É essa ponte entre culturas, lideranças e realidades que queremos fortalecer. Obrigada por traduzir com tanta precisão o que estamos construindo.
Uma matéria brilhante, que compreendeu a essência do DWS para além da experiência.
O Marrocos e o deserto são parte de uma escolha estratégica: aproximar realidades, provocar novas perspectivas e transformar a qualidade das conversas.
E nada disso teria a mesma profundidade sem o trabalho da UNFM, cuja atuação concreta pela autonomia, proteção e desenvolvimento das mulheres marroquinas nos lembra que impacto não se constrói apenas no discurso, mas na ação.
É essa ponte entre culturas, lideranças e realidades que queremos fortalecer. Obrigada por traduzir com tanta precisão o que estamos construindo.