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Acesso efetivo a dinheiro e apoio estruturado são pilares para avanço feminino nos negócios

Lorena Scavone Giron
5 de agosto de 2026
Em painel no Summit Mulheres nas Profissões, Ana Fontes, Adriana Barbosa e Margarete Coelho destacaram que ampliar a presença feminina nos negócios exige crédito, redes de apoio e políticas voltadas às diferentes realidades das empreendedoras

O avanço do empreendedorismo feminino no Brasil depende menos de discursos de incentivo e mais de acesso efetivo a dinheiro, formação, redes de apoio e espaços de decisão. Essa foi a principal mensagem do painel “Elas não abriram apenas negócios. Abriram caminhos”, realizado nesta quarta-feira (5)durante o Summit Mulheres nas Profissões, no Expo Center Norte, em São Paulo.

Mediado por Alice Coutinho, o encontro reuniu Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta, e Margarete Coelho, diretora de Administração e Finanças do Sebrae Nacional.

Ao longo da conversa, as painelistas defenderam que o empreendedorismo feminino seja tratado como uma pauta econômica estratégica, capaz de gerar renda, empregos, inovação e desenvolvimento social.

“Precisamos normalizar mulheres ganhando dinheiro”, afirmou Ana Fontes.

Criada no início da década passada, a Rede Mulher Empreendedora nasceu a partir de um blog no qual Fontes compartilhava conteúdos aprendidos em um programa de capacitação. A iniciativa se transformou em uma rede de alcance nacional, voltada à educação, conexão entre empreendedoras e acesso a recursos financeiros.

Segundo ela, a expansão do número de projetos dedicados às mulheres mostra que o tema deixou de ocupar uma posição marginal no debate econômico. O desafio agora é garantir que esse crescimento resulte não apenas em mais negócios abertos, mas em empresas sustentáveis e capazes de gerar renda.

Fontes também alertou para o risco de o empreendedorismo ser apresentado como solução individual para problemas estruturais do mercado de trabalho. Para ela, a atividade precisa ser acompanhada de crédito, capacitação, capital semente e instrumentos que permitam às mulheres ampliar seus negócios.

“Empreendedorismo feminino não pode ser ferramenta de precarização do trabalho. Tem que ser acompanhado de apoio, dinheiro e acesso ao mercado”, afirmou.

Economia preta como vetor de desenvolvimento

Fundadora da Feira Preta, Adriana Barbosa destacou que o empreendedorismo negro também precisa deixar de ser observado apenas sob a perspectiva social e passar a ser reconhecido como força econômica.

Criada há quase 25 anos, a Feira Preta surgiu com o objetivo de dar visibilidade à produção intelectual, cultural, criativa e empresarial da população negra. Segundo Barbosa, o projeto ajudou a construir uma narrativa na qual empreendedores negros não aparecem somente como consumidores ou beneficiários de políticas públicas, mas como criadores de produtos, negócios e mercados.

“A economia preta propõe novas formas de produzir, consumir e distribuir riqueza”, afirmou.

Para ela, discutir empreendedorismo exige reconhecer que mulheres enfrentam obstáculos diferentes de acordo com fatores como raça, renda, território e acesso à educação. A necessidade de uma mulher branca que empreende em uma grande capital, observou, não é necessariamente a mesma de uma mulher negra ou de uma empreendedora que vive em uma comunidade periférica.

Barbosa defendeu ainda a ampliação da presença feminina na política e nos centros de decisão. Segundo ela, mudanças estruturais dependem de mulheres ocupando os espaços onde políticas públicas, investimentos e prioridades econômicas são definidos.

Crédito ainda é barreira

Margarete Coelho concentrou sua participação nos obstáculos enfrentados pelas mulheres para acessar financiamento. De acordo com a executiva, as empreendedoras ainda encontram juros mais altos, maior desconfiança das instituições financeiras e dificuldades para lidar com a gestão do próprio negócio.

Ela destacou que o Sebrae mantém um fundo garantidor capaz de cobrir parte relevante das operações de crédito destinadas a pequenos negócios, reduzindo o risco para as instituições financeiras e facilitando a contratação de empréstimos.

Margarete também defendeu que programas de apoio considerem as particularidades de cada grupo de empreendedores, como mulheres, pessoas negras, profissionais com mais de 60 anos e negócios de impacto social.

“Não basta olhar para o empreendedorismo como se todos partissem do mesmo ponto. É preciso entender as dificuldades e potencialidades de cada segmento”, disse.

Para a executiva, a educação financeira também será decisiva para que mais mulheres consigam administrar fluxo de caixa, negociar crédito e expandir seus negócios.

Capital além dos empréstimos

As painelistas também defenderam que o acesso a recursos não fique limitado ao crédito bancário. Ana Fontes citou iniciativas de capital semente e microdoações destinadas a mulheres em situação de maior vulnerabilidade, que muitas vezes ainda não possuem estrutura para assumir uma dívida.

Segundo ela, pequenos aportes podem ajudar empreendedoras a comprar equipamentos, formalizar empresas, ampliar a produção ou conquistar novos clientes.

“A gente precisa pensar o acesso ao dinheiro não apenas como crédito. Há mulheres que ainda estão um passo atrás e precisam de outras ferramentas”, afirmou.

O painel também abordou o peso das redes de apoio na trajetória das empreendedoras. As participantes falaram sobre fracassos, fechamento de empresas, inseguranças e a pressão para que mulheres tenham trajetórias sempre bem-sucedidas.

Para Ana Fontes, reconhecer erros e pedir ajuda são partes fundamentais do processo de empreender. “A gente precisa parar de achar que a mulher tem que ser perfeita, mãe perfeita e empreendedora perfeita. As redes existem para segurar a mão umas das outras”, disse.

Ao final, as participantes defenderam que o avanço da liderança feminina até 2030 passa pela combinação de acesso a capital, qualificação, políticas públicas, presença feminina na política e reconhecimento das diferentes realidades das mulheres brasileiras.

Mais do que estimular a abertura de novos negócios, a proposta é permitir que as empreendedoras cresçam, ganhem dinheiro e participem das decisões que definem os rumos da economia.


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