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Move Brasil esbarra no crédito e usa só 7,3% dos recursos disponíveis

Da redação
3 de agosto de 2026
Programa voltado a taxistas e motoristas de aplicativo enfrenta baixa aprovação, dificuldade de comprovação de renda e demora na liberação dos veículos

Pouco mais de um mês após o lançamento, o Move Brasil ainda não conseguiu transformar o interesse dos motoristas em vendas de automóveis. Segundo reportagem de O Globo, a linha registrou demanda de R$ 2,2 bilhões até o fim da semana passada, o equivalente a 7,3% dos R$ 30 bilhões reservados pelo governo.

O programa oferece financiamento para carros novos e seminovos a partir do ano-modelo 2024, com valor de até R$ 150 mil, e tem como público taxistas e motoristas de aplicativos. Nas concessionárias ouvidas pelo jornal, a procura aumentou após o anúncio, porém poucas propostas chegaram à aprovação. Em uma rede de lojas, menos de 10% dos mais de cem pedidos analisados foram aceitos.

O principal obstáculo está no perfil de crédito dos interessados. Muitos trabalham como autônomos, possuem dívidas em atraso ou ainda enfrentam dificuldades para comprovar renda. Levantamento da Federação Nacional dos Sindicatos de Motoristas de Aplicativos aponta também exigência de entrada elevada, critérios internos dos bancos e falhas na integração do programa com o BNDES.

O cenário de inadimplência ajuda a explicar a cautela das instituições financeiras. A taxa média de atrasos nas operações de crédito chegou a 4,7%, maior nível da série iniciada pelo Banco Central em 2011. Mesmo com um fundo garantidor e com o próprio veículo servindo de garantia, os bancos continuam submetendo os clientes às análises tradicionais de risco.

A dificuldade também afastou parte das instituições privadas. Itaú e Bradesco decidiram não participar da iniciativa, enquanto Caixa e Banco do Brasil passaram a concentrar os esforços para aumentar as contratações. Entre as mudanças recentes está a aceitação dos extratos das plataformas de transporte como comprovante de renda.

Os bancos públicos também fecharam parcerias com aplicativos de mobilidade. Na Caixa, motoristas da 99 poderão receber até R$ 6,3 mil de volta em contratos a partir de R$ 40 mil. O Banco do Brasil firmou acordo semelhante com a Uber, com devolução equivalente a até três parcelas e meia do financiamento.

Mesmo entre os clientes aprovados, há relatos de demora no repasse dos recursos e na retirada dos automóveis. O BNDES atribui parte dos atrasos à necessidade de os bancos desenvolverem sistemas específicos para operar a linha, enquanto as instituições afirmam que as liberações seguem os procedimentos previstos.

O desempenho inicial mostra que oferecer juros e garantias diferenciadas não resolve sozinho o acesso ao crédito. Para o Move Brasil ganhar escala, será necessário aproximar as regras bancárias da realidade financeira dos motoristas autônomos, sem eliminar a avaliação de risco das operações.

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