O socialismo, desde o Século 19, sofreu poucas evoluções desde a teoria engendrada por Karl Marx e a instalação do regime comunista em 1917, na Rússia. O capitalismo, ao contrário, já mudou bastante desde a Revolução Industrial e está em constante transformação, acompanhando o ritmo da evolução tecnológica.
Pode-se dizer que acontece o mesmo com o perfil dos políticos. A esquerda, de maneira geral, ainda se parece muito com o perfil que se via décadas atrás (embora alguns grupos, como os da revolução armada, tenham desaparecido do mapa). Já a direita mudou bastante, especialmente nos últimos dez anos. Antes, tínhamos dois grandes representantes no mundo conservador: os brucutus, que viam comunistas até embaixo da cama, e os liberais econômicos, que tinham no economista Roberto Campos um de seus símbolos máximos. Correndo por fora, havia os que zelavam pela moral e pelos bons costumes (que se notabilizaram na “Marcha Pela Família com Deus pela Liberdade”, em 1964).
Esses grupos ainda existem, mas sofreram mudanças substanciais. O conservadorismo na pauta de costumes, por exemplo, foi moldado pelo crescimento das igrejas evangélicas e pelo surgimento das redes sociais. Hoje, as marchas empreendidas por este movimento são diárias, nos cultos ou nas páginas da internet.
Temos igualmente lideranças jovens que colocaram o combate à corrupção em um outro patamar, fazendo parecer a UDN um bando de colegiais inocentes. O ódio ao PT, neste universo, é muito maior que aquele cultivado por Carlos Lacerda a Getúlio Vargas e a Juscelino Kubistchek.
Alguns grupos, porém, não caberiam no manual do conservadorismo mais tradicional. O olavismo, batizado em torno da figura de Olavo de Carvalho, criou uma geração inteira de formadores de opinião nas redes, misturando anticomunismo, crítica às universidades e uma linguagem beligerante que os extremistas de outrora jamais teriam imaginado. Foi esse universo, mais do que qualquer partido, que formou boa parte da militância que hoje se autodenomina bolsonarista.
Há também os libertários ou anarcocapitalistas, presença ainda minoritária, mas influente entre jovens universitários e no mundo das criptomoedas. Defendem um Estado mínimo, o fim do Banco Central e a extinção de impostos considerados abusivos.
Do lado da mobilização de rua, surgiu o MBL, movimento que tomou para si uma tática historicamente associada à esquerda: o ativismo digital somado às manifestações públicas, com uma pauta anticorrupção embalada em estética jovem e pop. Não é exagero dizer que o MBL profissionalizou o protesto de direita no Brasil.
O agronegócio, por sua vez, deixou de ser apenas um bloco de interesse econômico influente no Congresso. Transformou-se também em identidade cultural própria, com o agro sendo tratado como orgulho nacional, ostentado em bonés, hashtags e patrocínios de rodeio.
Por fim, ganhou força um grupo alinhado ao movimento internacional que se autodenomina soberanista, com discurso claramente antiglobalista, hostil a organismos como ONU e adepto de alianças bilaterais e pessoais entre líderes, em vez da diplomacia multilateral tradicional. É esse o universo que hoje disputa espaço até mesmo com os grupos mais antigos da direita brasileira.
Essa metamorfose direitista, no entanto, não é privilégio do Brasil. Em toda a América Latina, essas transformações estão moldando o estilo dos políticos da região. Neste caldeirão, no entanto, existe outro tempero que vai produzir mais mutações: o combate ao crime organizado.
Em entrevista ao “Estado de S. Paulo”, o cientista político e professor chileno Cristóbal Rovira Kaltwasser, dissertou sobre essa tendência: “No que diz respeito à segurança pública, os cidadãos apontam como a questão mais crítica e apoiam políticas linha-dura, independente de sua inclinação ser de esquerda ou de direita. Essa é a bandeira levantada por figuras de ultradireita, que prometem combater o crime. É por isso que Nayib Bukele é visto como um modelo”.
A fragmentação da direita mostra que não existe mais um único modelo ideológico capaz de abrigar todo o espectro conservador. Essa pulverização é um sinal de força ou de fraqueza? Paradoxalmente, pode ser uma fortaleza. Enquanto a esquerda segue repetindo fórmulas testadas há décadas, a direita se reinventa a cada novo ciclo, absorvendo pautas emergentes (segurança pública, costumes, economia digital) antes que a esquerda perceba a o poder de mobilização desses temas.
O resultado é uma direita mais fragmentada, mas muito mais ágil em capturar o descontentamento do eleitor médio. E é essa agilidade, mais do que qualquer unidade ideológica, que explica por que os direitistas têm conseguido se reinventar na América Latina com uma velocidade que a esquerda simplesmente não acompanhou.
Essas transformações provocaram vitórias em praticamente toda o continente latino-americano. O Brasil seguirá a tendência ou será uma exceção à regra? Saberemos qual será a resposta à pergunta em outubro.