Em texto publicado no jornal americano, Lula afirma que acusações de Trump contra Brasil são infundadas e evoca ex-presidente republicano Bush
A recusa de vistos a dois oficiais do Departamento de Estado dos Estados Unidos levou o presidente Lula a escrever um artigo em um dos maiores jornais americanos, o The Washington Post, com críticas às tarifas e à possível tentativa de interferência nas eleições para presidente no Brasil. No texto, Lula chama acusações de Trump contra o Brasil envolvendo Pix, redes sociais americanas e desmatamento, de infundadas.
Foi o próprio Post que contou em primeira mão como os dois oficiais iriam apresentar aos diplomatas do Itamaraty um relatório que apontava supostas falhas nas urnas eletrônicas que serão usadas no pleito. O órgão negou a emissão de visto às autoridades americanas, em seguida.
No artigo, Lula argumenta que a deterioração das relações Brasil-EUA são prejudiciais à economia dos EUA, e se vale da história que teve à frente dos últimos três mandatos como presidente da República a seu favor. E se apoia na história do relacionamento entre os dois países.
“Tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não se sustentam. Nunca antes um secretário de Estado norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não-amigo. Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, escreveu Lula no artigo do Post, publicado na íntegra nas redes sociais do presidente.
Lula usa Franklin D. Roosevelt, um dos mais venerados presidentes democratas da história americana, para mostrar o papel dos americanos na industrialização brasileira, na época de Getúlio Vargas. Em elipse, lança mão de George W. Bush, memorável chefe de Estado republicano e que incluiu o Brasil e outros dois países latino-americanos em reuniões do G20, no auge da depressão econômica de 2008.
“Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que saibam respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de toda relação entre nações e temos mecanismos apropriados para assegurá-la”, disse Lula.
As tarifas, segundo Lula, estão levando o Brasil a procurar mercados alternativos diante o isolamento dos Estados Unidos do resto do mundo. O presidente brasileiro ainda aponta que as barreiras aduaneiras são prejudiciais ao consumidor americano.
Pivôs da mais nova sanção do representante de comércio americano, Lula defendeu mais uma vez o Pix, porque ele “não discrimina empresas norte-americanas e é uma referência internacional de infraestrutura pública digital”. Também justificou medidas mais duras contra plataformas e redes sociais norte-americanas: “a liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade nas plataformas de redes digitais — não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas.”
Por meio do artigo, Lula mostra novamente que, por enquanto, não está preocupado com seu principal opositor na disputa pelo Planalto em 2026.
Em vez de focar em Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o petista fez ameaça contra novas tentativas de interferência nas eleições brasileiras pelos Estados Unidos neste sábado, na convenção de lançamento da candidatura de Fernando Haddad (PT) ao governo de São Paulo. No texto ao jornal americano, reiterou a linha dura: “o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência.”
