Os principais partidos que compõem o Centrão – Republicanos, PP, MDB e União Brasil – caminham céleres para a neutralidade na campanha presidencial. Esse movimento mostra que as alianças regionais são mais importantes que a eleição para o Palácio do Planalto. São estes acordos que turbinam as bancadas e, como se sabe, as siglas de hoje estão mais interessadas em eleger deputados federais (a base utilizada para distribuir recursos do fundo partidário) do que o presidente da República. Além disso, a neutralidade deixa os centristas livres para aderir sem constrangimentos ao candidato vencedor.
Esta, aliás, é a única certeza desta eleição: o Centrão estará no poder, não importa quem ganhe o pleito. Luiz Inácio Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro vão precisar do apoio destes partidos no Congresso. O próximo presidente, assim, terá de costurar acordos que colocarão estas legendas na Esplanada dos Ministérios em troca de votos no Parlamento.
O preço do apoio a partir de 2027, no entanto, será remarcado. Haverá uma inflação significativa para a adesão dos centristas, que passaram os últimos quatro anos negociando votos junto ao Planalto no atacado e no varejo. O tamanho da conta vai depender de quem estiver à frente das negociações políticas. Lula não conseguiu se acertar com as forças dominantes no Congresso e isso lhe custou caro desde 2023. Já Flávio Bolsonaro (cuja candidatura entrou em inferno astral há dois meses e continua chamuscada até agora) poderá repetir a estratégia adotada por seu pai e entregar a Casa Civil ao Centrão, eliminando intermediários.
Desde o ano passado, o Centrão foi desidratando seu apoio a Lula, apostando em uma derrota petista em 2026. Os tropeços da campanha oposicionista, porém, deixaram este grupo político em estado de alerta. Mas, como estamos no Brasil, o favorito de hoje pode ser o derrotado de amanhã. Pelo sim, pelo não, o caminho da neutralidade deve ser a melhor opção para não ferir egos e destruir pontes.
A direita, diante desse cenário, enfrenta uma combinação de obstáculos que reduz suas chances de vitória. A fragmentação interna, somada ao desgaste acumulado por figuras centrais do campo conservador, dificulta a construção de uma narrativa coesa capaz de mobilizar eleitores além da base já consolidada. A neutralidade do Centrão, embora não seja uma derrota explícita, impede que a direita conte automaticamente com a máquina territorial desses partidos, que historicamente funcionam como multiplicadores de votos nos estados.
Outro ponto é a dificuldade da direita em apresentar um projeto que dialogue com o eleitorado moderado, especialmente em um ambiente de desgaste econômico e fadiga institucional. Recentemente, inclusive, o discurso de Flávio está se aproximando mais do bolsonarismo tradicional (incluindo a indefectível suspeita em relação às urnas eletrônicas) do que de uma proposta moderada. Isso não significa que o jogo esteja decidido, mas indica que a direita tem desafios cada vez maiores para enfrentar.
Ainda assim, vivemos dentro de uma redoma eleitoral volátil. Episódios inesperados, mudanças no humor do eleitorado ou erros estratégicos do campo adversário podem alterar o cenário. Mas, considerando o que se observa hoje, a direita depende mais de fatores externos do que de sua própria força política para reverter a tendência desfavorável. A neutralidade do Centrão, nesse contexto, funciona como termômetro: se esses partidos não enxergam vantagem clara em se alinhar à direita, é porque o cálculo político indica que a vitória conservadora parece, neste momento, menos provável.
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