Consultas em clínicas especializadas chegam a custar dezenas de milhares de reais por ano, enquanto compostos como BPC-157 ainda não têm aprovação da agência americana para uso humano
O mercado de peptídeos terapêuticos foi avaliado em US$ 140,86 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de R$ 760 bilhões, e deve chegar a US$ 163,98 bilhões neste ano, segundo dados da consultoria Grand View Research. O crescimento acompanha a popularização de um tipo específico de tratamento dentro da chamada medicina da longevidade: o uso combinado de peptídeos, pequenas cadeias de aminoácidos que atuam como mensageiros no organismo, orientando células a se regenerar, reduzir inflamação ou produzir hormônios.
A prática de combinar diferentes compostos em um mesmo protocolo é conhecida como stacking. Cada peptídeo é escolhido para atuar em uma frente distinta, e as combinações mais buscadas prometem resultados que vão de recuperação de tecidos e ligamentos a produção de colágeno, emagrecimento e melhora cognitiva. A aplicação mais comum é subcutânea, mas também existem versões intravenosas, sprays nasais e cremes tópicos.
Clínicas de longevidade multiplicaram-se nos Estados Unidos nos últimos anos. As estimativas do setor apontam para cerca de 800 clínicas em operação no país, oferecendo desde avaliações diagnósticas a partir de R$ 2.700 até programas de assinatura anual que podem passar de R$ 160 mil, valores que normalmente não são cobertos por planos de saúde. Nesses pacotes, os peptídeos costumam vir acompanhados de exames de sangue, monitoramento de biomarcadores e acompanhamento médico contínuo.
Da estética ao acompanhamento clínico
Clínicas relatam que pacientes que chegam buscando pele mais firme ou menos gordura corporal acabam permanecendo pelo acompanhamento de marcadores de saúde a longo prazo, como inflamação, função hormonal e risco de doenças associadas ao envelhecimento.
Esse movimento tem levado consultórios de estética a se reposicionarem como clínicas de longevidade, ampliando o menu de serviços para incluir infusões de NAD+, terapia hormonal e protocolos de peptídeos vendidos como parte de um pacote maior, não mais como procedimento avulso.
Uma zona regulatória ainda incerta
Nem todos os peptídeos ocupam a mesma posição legal, como a insulina, que têm aprovação da agência regulatória americana há décadas. Outros, entre eles o BPC-157, um dos mais procurados atualmente, não são aprovados para uso humano nos Estados Unidos, o que não torna o composto ilegal por si só. As regras recaem sobre como ele pode ser vendido, prescrito ou manipulado por farmácias.
Em fevereiro de 2026, o secretário de Saúde americano, Robert F. Kennedy Jr., anunciou que cerca de 14 dos 19 peptídeos até então restritos passariam a poder ser novamente manipulados por farmácias licenciadas mediante prescrição médica. A mudança formal ainda depende de avaliação do comitê consultivo de farmácias de manipulação da agência, com reunião marcada para os dias 23 e 24 de julho. Mesmo com a reclassificação, os compostos continuam sem aprovação para uso clínico específico e sem os testes de fase três exigidos para medicamentos regulares.
Levantamento da organização Partnership for Safe Medicines mostrou que sites vendem substâncias apresentadas como semaglutida, tirzepatida e outros peptídeos, muitas vindas de fábricas estrangeiras sem registro na agência americana, e que cresce o número de compradores que recorrem diretamente a fabricantes chineses pelas redes sociais. Plataformas de telemedicina também ampliaram o acesso a preços mais baixos, mas o nível de supervisão médica varia bastante de um serviço para outro.
Por Gustavo Frank
