A Copa do Mundo de 2026 expôs em escala inédita como funciona a arquitetura econômica das apostas esportivas. A observação consta em artigo assinado pelo economista Flávio Ataliba Barreto, coordenador do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre.
Segundo o texto, o torneio não criou o fenômeno das bets, mas tornou visível a forma como plataformas transformam emoção em decisões financeiras. Entre janeiro e abril, o setor movimentou R$ 12,2 bilhões no Brasil, o dobro do mesmo período de 2025. Durante a Copa, cerca de 35% dos brasileiros realizaram ao menos uma aposta, com valores médios que chegaram a picos acima de R$ 500 em jogos da Seleção.
A novidade desta edição, conforme Flávio Ataliba Barreto, foi a integração da publicidade de apostas à própria narrativa esportiva. Em transmissões como a da CazéTV, comentaristas passaram a divulgar odds em tempo real durante as partidas, prática que levou o Conar e a Senacon a abrir investigações. O episódio, aponta o economista, mostrou como a credibilidade dos narradores e analistas passou a ser usada como mecanismo de persuasão, deslocando parte da arquitetura das plataformas para dentro do espetáculo esportivo.
O artigo também destaca a tensão no topo da pirâmide. Jogadores como Kylian Mbappé solicitaram à Federação Francesa de Futebol revisão do uso de suas imagens em campanhas de apostas, enquanto a FIFA manteve contrato de patrocínio com a Betano. A situação, na visão do especialista, evidencia como o setor influencia não apenas consumidores, mas também instituições e atletas de elite.
Para Flávio Ataliba Barreto, o debate não deve se limitar ao comportamento individual. As plataformas utilizam mecanismos como recompensa variável, redução de fricções e algoritmos de aprendizagem para explorar vieses cognitivos em larga escala. A Copa funcionou como laboratório comportamental em tempo real, produzindo dados que serão usados para refinar ainda mais a capacidade das bets de induzir apostas em futuras competições.
O desafio regulatório, conclui o economista, é compreender como proteger a emoção do futebol sem permitir que ela seja capturada por uma arquitetura econômica desenhada para lucrar com decisões previsíveis.
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