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O tamanho do eleitorado que está à margem da polarização

Aluizio Falcão Filho
17 de junho de 2026

Um recorte da última pesquisa realizada pelo Instituto Quaest e revelado pelo jornal “O Globo” mostra o verdadeiro tamanho do eleitorado pendular, aquele que pode votar tanto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva como em Flávio Bolsonaro. Segundo o estudo, 27% dos eleitores não rejeitam nem Lula nem Flávio. E são esses cidadãos que, na prática, vão decidir quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 2027.

Esses 27% fazem parte de um grupo maior, chamado de “independente”, que representa 40% do total de eleitores. Está neste grupo o maior desafio para o senador fluminense. Nas simulações de primeiro turno, a pesquisa Quaest mostrou que Lula é o preferido por 28%. Em seguida, com 18%, vêm aqueles que dizem votar em branco, nulo e não comparecer às urnas. Somente em terceiro lugar aparece Flávio Bolsonaro, com 14% das intenções.

Está neste quadrante a explicação para a recuperação de Lula nas pesquisas. Além da queda de Flávio, houve uma recuperação da imagem do presidente entre os eleitores independentes. No mês de abril, por exemplo, 49% dos indivíduos deste grupo reprovavam Lula. Hoje, são 40%. Ao mesmo tempo, a aprovação do mandatário neste segmento subiu de 44% para 51%.

A campanha oposicionista já percebeu que precisa se recuperar entre esses moderados e fez ajustes no discurso de seu principal nome. Flávio já vinha falando, aqui e ali, sobre a necessidade de manutenção dos atuais programas sociais. Fez isso, inclusive, em um encontro promovido por MONEY REPORT em novembro.

Nesta semana, no entanto, resolveu deixar essa posição bem explícita. Em evento realizado pela revista VEJA, disse o seguinte: “Esse programa virou um direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocá-lo, de acabar com esse programa. Qualquer país do mundo tem um programa para pessoas de baixa renda, que têm dificuldade alimentar. Muita gente tem um preconceito com relação a quem está na Bolsa Família, como se [o beneficiário] não quisesse trabalhar, é um erro isso. Quase 70% das pessoas que recebem o Bolsa Família trabalham informalmente e não vão para a formalidade porque têm medo de perder o benefício. A gente tem que entender que […] o Bolsa Família é estabilidade para quem já passou fome”.

Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio que vai além da disputa direta com Lula. Para reconquistar o eleitorado pendular e independente, precisa construir uma imagem que dialogue com a sensibilidade política desse grupo, que valoriza estabilidade, pragmatismo e moderação. O discurso voltado à preservação de programas sociais é um primeiro passo, pois sinaliza empatia e compromisso com políticas que têm impacto real na vida das pessoas. No entanto, essa aproximação exige consistência. O eleitor independente tende a rejeitar posturas radicais e a desconfiar de mudanças bruscas de tom.

A recuperação da credibilidade passa por uma estratégia de comunicação que una coerência e renovação. Flávio precisa mostrar que aprendeu com os erros do passado e que é capaz de representar uma alternativa viável, sem recorrer à retórica de confronto que marcou o ciclo anterior. O foco deve estar em temas como eficiência administrativa, responsabilidade fiscal e inclusão social, apresentados de forma equilibrada e sem apelos ideológicos.

Outro ponto essencial é a construção de pontes com setores da sociedade civil e com lideranças regionais fora do núcleo bolsonarista tradicional. O eleitor pendular valoriza diálogo e resultados concretos. Ao se mostrar aberto a conversas com diferentes segmentos, Flávio pode reduzir resistências e ampliar sua base de confiança.

Por fim, a credibilidade não se reconquista apenas com palavras, mas com gestos. A defesa pública de programas sociais, o reconhecimento da importância de políticas de combate à fome e a disposição para discutir soluções de longo prazo podem ajudar a reposicionar sua imagem. O desafio é grande, mas o caminho passa por abandonar o tom de guerra e adotar o da construção.

Outro desafio, no entanto, persiste: superar a impressão, junto à opinião pública, de que o senador não revelou uma suposta proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro quando teve a oportunidade. Aqui é que está o “x” da questão. Flávio precisa encontrar uma fórmula para minimizar este episódio ou buscar alguma manobra diversionista para que a credibilidade do oponente seja afetada. Sem isso, as suas chances de vitória podem diminuir bastante nos próximos meses.

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