Para economista-chefe do J.P. Morgan na América Latina, impacto direto sobre o crescimento brasileiro tende a ser limitado; maior risco está em uma escalada de retaliações entre Brasil e Estados Unidos
As novas tarifas estudadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros devem ter impacto limitado sobre o crescimento econômico do Brasil, mas podem abrir uma frente de risco mais sensível caso provoquem uma escalada nas tensões comerciais entre os dois países.
A avaliação é de Cassiana Fernandez, economista-chefe para a América Latina do J.P. Morgan. Durante painel em evento do LIDE sobre as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos, realizado nesta terça-feira (9), ela afirmou que o efeito direto das medidas sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro tende a ser reduzido, mas alertou para os desdobramentos de uma possível reação em cadeia.
“O maior risco é a escalada”, afirmou.
O tema ganhou força após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluir investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. O órgão propôs uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras.
A medida ainda passará por consulta pública e negociação diplomática antes de uma decisão final, prevista para 15 de julho. Entre os pontos questionados pelos americanos estão Pix, comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.
Apesar do endurecimento da postura americana, Cassiana ponderou que a relação entre os dois países não pode ser resumida à disputa tarifária. Para ela, Brasil e Estados Unidos mantêm uma conexão econômica ampla, que envolve comércio, investimento, tecnologia, energia, serviços financeiros e cadeias industriais integradas.
“A relação Brasil-Estados Unidos é estratégica e multidimensional. Combina comércio, investimento, tecnologia, energia, serviços financeiros e cadeias industriais integradas”, afirmou.
Caso as medidas avancem nos moldes atualmente discutidos, a tarifa média aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros poderia subir dos atuais 11% a 12% para cerca de 19%. O cálculo considera exceções já previstas para itens como café, carne bovina, terras raras, suco de laranja, partes de aeronaves e equipamentos específicos.
Ainda assim, segundo a economista, o impacto macroeconômico direto deve ser contido. As exportações brasileiras para os Estados Unidos representam menos de 10% das vendas externas do país, o equivalente a cerca de 1,5% do PIB. Além disso, o Brasil vem ampliando sua diversificação de mercados e registrando recordes sucessivos nas exportações.
“Nenhuma grande casa revisou suas projeções de PIB para o Brasil por conta do anúncio das tarifas”, disse Cassiana.
Retaliação preocupa mais que a tarifa
Na avaliação da economista do J.P. Morgan, o ponto de atenção não está apenas na imposição das tarifas, mas na possibilidade de uma resposta brasileira que desencadeie um ciclo de retaliações comerciais.
Esse cenário poderia elevar custos para empresas e consumidores, pressionar a inflação e tornar mais complexo o trabalho do Banco Central, especialmente em um ambiente de juros ainda elevados e inflação resistente.
Cassiana defendeu que as negociações entre Brasília e Washington sejam conduzidas com foco na redução das fricções comerciais, sem comprometer o ambiente de negócios e investimentos entre os dois países.
Atualmente, Brasil e Estados Unidos mantêm um grupo de trabalho bilateral, criado após encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em maio, na Casa Branca. O objetivo é buscar uma saída negociada para as tarifas e para os pontos levantados na investigação americana.
Investimento direto é a principal âncora
Para Cassiana, o principal ativo da relação bilateral hoje não é o comércio, mas o investimento estrangeiro direto.
Segundo dados apresentados por ela, o fluxo de investimento direto estrangeiro para o Brasil deve alcançar cerca de 3,3% do PIB em 2026. Desse total, aproximadamente 19% têm origem nos Estados Unidos.
Na avaliação da economista, esse capital ajuda a sustentar geração de empregos, transferência de tecnologia, modernização da infraestrutura e expansão da capacidade produtiva brasileira.
“A agenda Brasil-Estados Unidos deve focar em proteger o ambiente de investimento direto como um ativo estratégico”, afirmou.
Ela também defendeu o avanço de novos acordos comerciais e a diversificação dos destinos das exportações brasileiras. O acordo entre Mercosul e União Europeia foi citado como uma das alternativas para ampliar oportunidades e reduzir a dependência de mercados específicos.
Ao encerrar sua participação, Cassiana afirmou que a tensão tarifária atual não deve se sobrepor à importância estrutural da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos.
“A relação transcende a discussão comercial que está sob estresse no curto prazo. O investimento direto externo é a âncora estrutural e é isso que deve ser preservado ao longo do tempo”, concluiu.
