A escrita costuma ser o refúgio dos tímidos. Afinal, nenhum retraído gosta de falar. Escrever, porém, é outra coisa. Trata-se de um exercício diferente, pois aquele que redige um texto não tem interlocutores. Além da falta de plateia, não há necessidade de timing, de impostação ou modulação de voz. Compor uma narrativa é algo que pode ser feito no ritmo do autor: rápido ou lento.
Mas o texto perde espaço cada vez mais para os TikToks da vida. Hoje, muitos escritores em potencial têm exposto suas ideias no vídeo. Aliás, a nova geração em peso parece ter um fetiche especial com a câmera: as vidas da garotada são registradas nos mínimos detalhes.
É como se todos tivessem nascido com a vocação de repórter televisivo. Ou estão apresentando algo na telinha ou conversando com alguém (ou as duas coisas ao mesmo tempo). De uma hora para outra, todos desejam ter habilidades de um jornalista de TV – enquanto o jornalismo propriamente dito sofre dificuldades com a decadência dos veículos tradicionais de mídia.
Mas e quem é tímido, faz o quê?
Aqueles que têm aversão ao protagonismo no vídeo ficam em segundo plano. O mundo está recompensando os indivíduos que sabem se comunicar. Mais que isso: valoriza quem fala bem de si mesmo. Isso, porém, está mais arraigado nos grandes públicos. Nos andares de cima, essa obsessão com os holofotes (ou melhor, com as câmeras), não é vista com grande entusiasmo.
Muitos dos usuários de redes sociais (influenciadores ou não) acabam caindo nesta egotrip exibicionista. Alguns, com alguma discrição. Outros, descaradamente. Mas um tímido jamais faria isso. E, em caso de necessidade extrema, acharia alguém para fazer os elogios a ele. Mas, cabotinismo? Definitivamente, não.
Curiosamente, o TikTok é a rede social que reúne exibicionistas, mas ao mesmo tempo é a mídia que mais estimula a leitura de livros através da plataforma BookTok. Através desse recurso – uma espécie de clube de leitura virtual – milhões de publicações foram vendidos através de recomendações postadas nesta rede. Quer um exemplo? Vejamos a lista dos livros mais vendidos da revista Veja. Dos dez mais vendidos, duas publicações foram recomendadas no BookTok: “Noites brancas”, de Fiódor Dostoiévski, e “A hora da estrela”, de Clarice Lispector.
Voltando aos tímidos: eles estão condenados à extinção ou ao ostracismo?
A timidez, certamente, não vai desaparecer. Enquanto muitos disputam atenção nas telas, os mais reservados continuarão encontrando força na observação silenciosa, na escuta atenta e na profundidade cultivada por quem não gosta de aparecer o tempo todo. Em um mundo que fala sem parar, os tímidos vão oferecer a capacidade de pensar antes de se pronunciar ou de criar antes de se exibir. Talvez os inibidos não brilhem sob os holofotes. Mas são eles que iluminam as ideias e a sensibilidade, trazendo reflexão a todos nós, incluindo aqueles que estão mais preocupados em aparecer do que raciocinar.