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Exame: A diversificação de uma das famílias mais ricas do RS

Da redação
11 de abril de 2026


A família Randon controla a maior fabricante de semirreboques da América Latina e diversifica com produção de queijo tipo grana, vinho e azeite

Em Caxias do Sul, no interior gaúcho, uma oficina de motores aberta em 1949 por dois irmãos cresceu até virar um conglomerado com 13,1 bilhões de reais em receita.+

A Randoncorp, maior fabricante de semirreboques, aquelas carretas que compõem a maioria dos caminhões nas estradas brasileiras, da América Latina, é hoje uma empresa com presença em mais de 120 países e ações negociadas na Bolsa.

Mas os Randon não pararam por aí.

A mesma família que construiu um império no transporte rodoviário também produz queijo tipo grana, um queijo de pasta dura com maturação longa inspirado no italiano grana padano, vinho espumante, azeite e maçã.

Isso tudo por meio da RAR, empresa agrícola fundada pelo patriarca Raul Anselmo Randon em Vacaria, na Serra Gaúcha, separada da Randoncorp e com capital fechado.

A RAR acaba de reorganizar sua estrutura de governança com a promoção de executivos internos, Jiovani Foiatto, que assume a diretoria de gastronomia, e Raquel Manfredi Pandolfo, que passa a liderar a diretoria executiva, e tem na mira uma meta ambiciosa: sair dos atuais 550 milhões de reais em faturamento e chegar a 1 bilhão de reais até 2034.

“Alcançamos avanços importantes nos últimos anos e, para sustentar esse ritmo e seguir em direção à nossa visão de 1 bilhão de reais, entendemos que este é o momento de fortalecer a governança e ampliar a capacidade de gestão do negócio”, diz Sergio Martins Barbosa, presidente da RAR.

Para a RAR, chegar ao bilhão até 2034 exige mais do que crescimento orgânico. É preciso executar uma expansão de distribuição em mercados onde a empresa ainda não chegou — sem comprometer o abastecimento dos canais já consolidados.

O desafio maior está em escalar um portfólio premium num país com juros altos e consumo pressionado.

Uma oficina, um incêndio e um freio que mudou tudo: a história da Randon

Em 1949, os irmãos Hercílio e Raul Randon abriram uma pequena oficina em Caxias do Sul para consertar motores. Dois anos depois, um incêndio destruiu o galpão e quase encerrou a história antes mesmo de começar.

Forçados a recomeçar, os irmãos apostaram em algo que ainda não existia no Brasil: o freio a ar comprimido para caminhões.

A tecnologia se mostrou ideal para os veículos que enfrentavam as ladeiras da serra gaúcha e virou o embrião do que seria a Mecânica Randon.

Ao longo da década de 1970, com a expansão do mercado, a empresa investiu pesado nos semirreboques e triplicou seu patrimônio. 

O crescimento rápido, porém, teve um custo: a recessão e o colapso do setor de veículos pesados na década de 1980 colocaram a empresa em crise, com dívida disparada. A recuperação começou com um contrato de exportação de 713 carretas para a Argélia.

Raul Randon morreu em 2018, aos 88 anos.

Antes disso, planejou a sucessão com cuidado. Em 1989 Hercílio, seu irmão e grande parceiro nos negócios, faleceu. Na década de 1990 iniciou um período de transição e reorganização administrativa. Os filhos que teve com a esposa Nilva Teresinha D’Agostini — David, Roseli, Alexandre, Maurien e Daniel — já participavam da administração e foi criada a holding familiar Dramd.

Como está a Randoncorp hoje

A Randoncorp encerrou 2025 com receita líquida consolidada de 13,1 bilhões de reais, crescimento de 10,3% em relação ao ano anterior, mesmo em um ambiente marcado pela elevação das taxas de juros no Brasil, incertezas políticas e econômicas globais e desaceleração em segmentos relevantes para a indústria automotiva.

O grupo conta com 5 verticais de negócios: Montadora, Autopeças, Controle de Movimentos, Serviços Financeiros e Digitais e Tecnologia Avançada.

A expansão internacional tem sido um dos principais motores desse crescimento: as aquisições recentes da EBS, no Reino Unido, e AXN, nos Estados Unidos, impulsionaram as receitas internacionais.

A empresa que os Randon compraram

Nem tudo no portfólio da família nasceu de uma ideia do patriarca.

Frasle Mobility, fabricante de componentes de fricção para freios, pastilhas, lonas e discos usados em carros, caminhões e ônibus, foi fundada em 1954 pela família Stedile, em Caxias do Sul.

Os Randon só assumiram o controle em 1996, quando a Randon S.A. adquiriu a participação acionária da empresa.

Nos 30 anos seguintes, a Frasle cresceu dentro do grupo por aquisições sucessivas — e hoje é listada separadamente na Bolsa. Em 2025, registrou receita líquida de 5,5 bilhões de reais, 38,5% acima do ano anterior, impulsionada pela compra da Dacomsa, distribuidora mexicana de autopeças de reposição, concluída em janeiro daquele ano.

O hobby que virou empresa

Enquanto a Randoncorp crescia no setor industrial, Raul Randon cultivava outro projeto — literalmente.

O patriarca começou a produzir maçãs por causa de um incentivo fiscal, dado que, em meados dos anos 1970, o país importava grande parte do consumo doméstico da fruta.

A entrada nos queijos veio depois, quase por acidente.

Em meados dos anos 1990, Raul aprendeu com um amigo italiano sobre as particularidades do grana padano. Decidido a produzir o item no Brasil, voou para Ohio, nos Estados Unidos, e comprou 140 vacas prenhas, que chegaram a Porto Alegre em dois aviões cargueiros da Boeing.

A lógica se repetiu nos vinhos. Em meados de 2002, Raul decidiu começar a produzir vinhos aproveitando a comemoração de 50 anos de seu casamento.

Escalar sem perder o controle

A RAR opera com uma premissa que vai na contramão do varejo alimentar tradicional: crescer dentro do segmento premium, sem buscar volume.

“A gente escala a empresa dentro do nosso segmento, que é o premium. A gente não vai para o lado do ‘bastantão’, porque aí a disputa é muito grande e exige muito investimento”, diz Barbosa, presidente da empresa.

Na prática, isso significa expansão controlada.

A empresa exporta maçãs para mais de 20 países e projeta cerca de 10 mil toneladas de maçã exportadas, com presença na Europa e na Ásia.

No mercado interno, avança em pontos de distribuição — de grandes centros a destinos turísticos. “Você vai para o litoral, para o Norte, para lugares como Fernando de Noronha, e encontra nossos produtos. Isso é fruto de distribuição bem feita”, afirma o executivo.

O ambiente econômico dificulta essa equação. Juros altos e inadimplência crescente afetam o consumo, inclusive no segmento premium.

“A gente sentiu, claro. Seria mentira dizer que não. Mas, com canais bem estruturados e produto diferenciado, a gente consegue atravessar esses momentos”, diz Barbosa.

Para crescer, a empresa já investiu em infraestrutura — de câmaras frias a equipamentos. O foco agora é na execução. A reorganização de governança anunciada recentemente é parte dessa preparação: promover lideranças internas que conhecem a operação, sem depender de contratações externas para uma fase de escala.

“A gente sempre diz: não coloca todos os ovos no mesmo cesto. Nem todos os negócios vão bem ao mesmo tempo — mas sempre tem um que puxa o outro”, afirma Barbosa.

Essa lógica atravessa tanto a RAR quanto a Randoncorp. Do freio a ar comprimido que salvou dois irmãos após um incêndio ao queijo maturado por dois anos nas câmaras frias da Serra Gaúcha, os Randon construíram negócios com uma característica em comum: apostas de longo prazo.

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Por Daniel Giussani

Publicação original

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