Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda une expertise técnica e viés político, mas mercado teme decisões sobre preços e estratégias guiadas por agendas eleitorais
A indicação de Guilherme Santos Mello (na imagem) ao conselho de administração da Petrobras, com pedido explícito de que ele assuma a presidência do colegiado, reacende o debate sobre o nível de interferência do governo petista na gestão da estatal, em um cenário já marcado por demissões e pressões políticas sobre preços de combustíveis. Enquanto o governo reforça que se trata de uma escolha técnica e alinhada à governança, analistas do mercado financeiro e de petróleo veem na movimentação um novo sinal de que a companhia pode ser usada, novamente, como instrumento da política econômica de curto prazo.
Atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Mello já acumula cargos como presidente do conselho de administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e membro dos conselhos da Pré-Sal Petróleo (PPSA) e da BB Seguridade, o que reforça o perfil político‑técnico de sua indicação. Anteriormente, seu nome chegou a ser ventilado para a diretoria do Banco Central (BC). A Petrobras informou que a substituição de Bruno Moretti e a eventual eleição de Mello à presidência do conselho serão submetidas à assembleia geral ordinária, em 16 de abril, com análise de requisitos de governança, gestão e integridade antes da aprovação.
A escolha de Mello ganha peso em um contexto em que a diretoria da Petrobras passou recentemente por demissões ligadas a decisões comerciais que contrariaram o governo, como o caso do leilão de GLP criticado diretamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A saída de Claudio Romeo Schlosser da diretoria de Logística, Comercialização e Mercados, anunciada logo após a crítica, foi interpretada por analistas como um movimento de pressão para conter alta de preços e reforçar o controle político sobre a companhia.
Diante disso, parte do mercado passa a enxergar a tríade governo‑Ministério da Fazenda‑Petrobras como um bloco mais próximo do Executivo, com risco de alinhar decisões de preço e estratégia a agendas políticas, especialmente em ano de pressão eleitoral. Especialistas citam a possibilidade de uso de subsídios, congelamentos de preços e intervenções em contratos comerciais, o que prejudica a rentabilidade da companhia e, em última instância, o valor de seus papéis em bolsa.
Nesse sentido, o governo federal já mobilizou cerca de R$ 31 bilhões em subsídios e desonerações tributárias para tentar conter a alta dos combustíveis, mas os efeitos dessas medidas ainda não chegaram de forma consistente ao consumidor. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defende que o principal desafio do governo é garantir que os benefícios concedidos ao setor sejam efetivamente repassados ao consumidor final. No entanto, o número um da Fazenda descartou a necessidade de novas ações para conter os impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços da gasolina.
Ainda assim, governo e Petrobras defendem que a gestão da empresa precisa compatibilizar rentabilidade, segurança energética e impacto social, especialmente em um cenário de petróleo internacional elevado e guerra no Irã ampliando a volatilidade global. Para o mercado, porém, o desafio será avaliar se a nova composição do conselho – com um nome historicamente ligado ao núcleo econômico de Brasília – reforça independência estratégica ou consolida uma linha mais intervencionista na companhia.
