Mensagens, contradições, intimidações e indícios de proteção institucional marcam uma suspeita de feminicídio escolhida como Imagem da Semana
A suspeita morte da soldado policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ocorrida em sua residência, na cidade de São Paulo, não se resume a um único e fatídico momento. É uma sequência de sinais, contradições e evidências que se acumulam — por isso o caso foi escolhido como Imagem da Semana.
Mais do que um crime, revela um encadeamento de fatos que começa antes do disparo e se estende para antes e depois das alegações de suicídio. Seu marido, o tenente-coronel PM Geraldo Leite Rosa, de 53 anos, está preso e, apesar das tentativas de encobertamento, se tornou ré por feminicídio e fraude processual.
Medo e alertas
Relatos reunidos pela investigação apontam um histórico de abusos por parte de Leite Rosa Neto, seu superior hierárquico na corporação. Mensagens atribuídas a ele nos dias anteriores ao crime suspeito indicam uma visão de relacionamento baseada em dominação e exigências de submissão que Gisele deixou de admitir.
Para o Ministério Público (MP-SP), o conteúdo revela um comportamento machista, agressivo, possessivo e manipulador. Em conversas extraídas do celular, o oficial PM se descreve como “macho alfa provedor” e afirma que a companheira deveria ser uma “fêmea beta obediente e submissa”, de acordo com as crenças red pill (pílula vermelha), grupos masculinos online que alegam ter despertado contra a opressão feminista, exigindo retrocessos na sociedade e nos relacionamentos. Apelar para a violência é comum quando confrontados por mulheres com quem se relacionam.
🚨 Tenente-coronel exigia esposa 'obediente e submissa', dizem mensagens
— Cenarium (@cenariumam) March 19, 2026
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso por suspeita de feminicídio e fraude processual, enviou mensagens à companheira, a soldado Gisele Alves Santana, nas quais afirmou que toda mulher casada… pic.twitter.com/kZLxMy139E
Esse padrão também aparece em imagens obtidas pela investigação. Um vídeo mostra o tenente-coronel discutindo com funcionários do condomínio onde morava, em São José dos Campos (SP). Nas imagens, ele aparece exaltado, elevando o tom de voz em afirmações ofensivas e intimidadoras durante uma discussão sobre regras de acesso de visitantes.
🚨 VEJA l Vídeo mostra tenente-coronel preso por morte de PM em discussão exaltada e gesticulando com funcionários de portaria do condomínio pic.twitter.com/izNVlP4fCt
— Notícias Paralelas (@NP__Oficial) March 20, 2026
O episódio foi citado na denúncia do MP-SP como parte do contexto de comportamento autoritário do suspeito. Gisele, segundo apuração, chegou a perguntar a uma psicóloga da corporação se o marido seria capaz de matá-la. A frase ganha peso de alerta público para casos equivalentes.
Insustentável
A versão inicial apresentada foi de suicídio após uma discussão. O tenente-coronel afirmou que estava no banho no momento do disparo e que não teve contato com o corpo. A cronologia, no entanto, levanta dúvidas relevantes.
Uma vizinha ouviu o tiro, mas o pedido de socorro foi feito só 29 minutos depois. O investigado disse que estava molhado, mas foi encontrado com o corpo seco pelos policiais e socorristas. Antes de acionar o resgate, teria feito uma ligação para um amigo desembargador, que esteve no local. Só depois disso tomou banho, contrariando orientações.
A cenário todo era suspeito desde o início. As câmeras corporais dos PMs que atenderam à ocorrência registraram o oficial policial no corredor do prédio. Os agentes alegaram tentativa de intimidação.
A perícia
Os laudos técnicos reforçaram as inconsistências relatadas. O uso de luminol encontrou vestígios de sangue no box do banheiro, na parede, no chão e na roupa do investigado. O padrão dessas manchas indica contato direto com a vítima enquanto ela ainda sangrava.
A trajetória do sangue no corpo não corresponde à posição em que Gisele foi encontrada. A conclusão pericial aponta que o corpo foi movido.
Outros exames reforçam a suspeita. O laudo necroscópico indica marcas no pescoço de Gisele enquanto viva, sugerindo que ela pode ter sido agredida e desmaiado antes do disparo. O exame residuográfico não identificou pólvora nas mãos dela. A posição da arma também foi considerada incomum para casos de suicídio.
O conjunto das evidências constrói uma dinâmica incompatível com a versão apresentada e coloca o PM como forte suspeito de feminicídio.
A ciência forense desvendou o feminicídio da esposa que o tenente-coronel tentou esconder. pic.twitter.com/DqVFBOWIGh
— Pedro Ronchi (@PedroRonchi2) March 18, 2026



O que veio à tona
Para piorar, imagens mostram o momento em que o tenente-coronel chega ao Presídio Militar Romão Gomes e é abraçado por um policial. O registro ganhou repercussão negativa e reforçou as evidências de solidariedade machista se sobrepondo ao crime.
🚨 SP | Tenente preso por feminicídio chega a presídio sem algemas e recebe abraço de policial
— Metrópoles (@Metropoles) March 18, 2026
🤳 canalbrito | @myhoodbr pic.twitter.com/f0ekp0pf6w
Outros pontos precisam ser esclarecidos. Três PMS foram até o apartamento após a perícia para realizar uma limpeza.
Geraldo Leite Rosa tenente-coronel da polícia militar é suspeito pelo crime de feminicidio de sua esposa, a PM Gisele Alves. E foi extremamente estarrecedor ver, "TRÊS POLÍCIAIS MULHERES", irem ao apartamento logo após o crime e limparem todas as provas. pic.twitter.com/zNrZTGHtkL
— Lolla G. 👠🍑🦂 (@LollaBeatrice) March 11, 2026
A defesa
A defesa questiona a competência da Justiça Militar para decretar a prisão e afirma que o oficial colaborou com as investigações. Também alega exposição indevida de aspectos da vida privada.
O que permanece
O que torna este caso a Imagem da Semana não é apenas a violência, mas a soma dos elementos impossíveis de ignorar que vieram à tona. Não foi uma única imagem.
🚨 VEJA l Vídeo mostra tenente-coronel preso por morte de PM em discussão exaltada e gesticulando com funcionários de portaria do condomínio pic.twitter.com/izNVlP4fCt
— Notícias Paralelas (@NP__Oficial) March 20, 2026
