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O suicídio impossível da PM Gisele

Da redação
21 de março de 2026
Mensagens, contradições, intimidações e indícios de proteção institucional marcam uma suspeita de feminicídio escolhida como Imagem da Semana

A suspeita morte da soldado policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ocorrida em sua residência, na cidade de São Paulo, não se resume a um único e fatídico momento. É uma sequência de sinais, contradições e evidências que se acumulam — por isso o caso foi escolhido como Imagem da Semana.

Mais do que um crime, revela um encadeamento de fatos que começa antes do disparo e se estende para antes e depois das alegações de suicídio. Seu marido, o tenente-coronel PM Geraldo Leite Rosa, de 53 anos, está preso e, apesar das tentativas de encobertamento, se tornou ré por feminicídio e fraude processual.

Medo e alertas

Relatos reunidos pela investigação apontam um histórico de abusos por parte de Leite Rosa Neto, seu superior hierárquico na corporação. Mensagens atribuídas a ele nos dias anteriores ao crime suspeito indicam uma visão de relacionamento baseada em dominação e exigências de submissão que Gisele deixou de admitir.

Para o Ministério Público (MP-SP), o conteúdo revela um comportamento machista, agressivo, possessivo e manipulador. Em conversas extraídas do celular, o oficial PM se descreve como “macho alfa provedor” e afirma que a companheira deveria ser uma “fêmea beta obediente e submissa”, de acordo com as crenças red pill (pílula vermelha), grupos masculinos online que alegam ter despertado contra a opressão feminista, exigindo retrocessos na sociedade e nos relacionamentos. Apelar para a violência é comum quando confrontados por mulheres com quem se relacionam.

Esse padrão também aparece em imagens obtidas pela investigação. Um vídeo mostra o tenente-coronel discutindo com funcionários do condomínio onde morava, em São José dos Campos (SP). Nas imagens, ele aparece exaltado, elevando o tom de voz em afirmações ofensivas e intimidadoras durante uma discussão sobre regras de acesso de visitantes.

O episódio foi citado na denúncia do MP-SP como parte do contexto de comportamento autoritário do suspeito. Gisele, segundo apuração, chegou a perguntar a uma psicóloga da corporação se o marido seria capaz de matá-la. A frase ganha peso de alerta público para casos equivalentes.

Insustentável

A versão inicial apresentada foi de suicídio após uma discussão. O tenente-coronel afirmou que estava no banho no momento do disparo e que não teve contato com o corpo. A cronologia, no entanto, levanta dúvidas relevantes.

Uma vizinha ouviu o tiro, mas o pedido de socorro foi feito só 29 minutos depois. O investigado disse que estava molhado, mas foi encontrado com o corpo seco pelos policiais e socorristas. Antes de acionar o resgate, teria feito uma ligação para um amigo desembargador, que esteve no local. Só depois disso tomou banho, contrariando orientações.

A cenário todo era suspeito desde o início. As câmeras corporais dos PMs que atenderam à ocorrência registraram o oficial policial no corredor do prédio. Os agentes alegaram tentativa de intimidação.

A perícia

Os laudos técnicos reforçaram as inconsistências relatadas. O uso de luminol encontrou vestígios de sangue no box do banheiro, na parede, no chão e na roupa do investigado. O padrão dessas manchas indica contato direto com a vítima enquanto ela ainda sangrava.

A trajetória do sangue no corpo não corresponde à posição em que Gisele foi encontrada. A conclusão pericial aponta que o corpo foi movido.

Outros exames reforçam a suspeita. O laudo necroscópico indica marcas no pescoço de Gisele enquanto viva, sugerindo que ela pode ter sido agredida e desmaiado antes do disparo. O exame residuográfico não identificou pólvora nas mãos dela. A posição da arma também foi considerada incomum para casos de suicídio.

O conjunto das evidências constrói uma dinâmica incompatível com a versão apresentada e coloca o PM como forte suspeito de feminicídio.



O que veio à tona

Para piorar, imagens mostram o momento em que o tenente-coronel chega ao Presídio Militar Romão Gomes e é abraçado por um policial. O registro ganhou repercussão negativa e reforçou as evidências de solidariedade machista se sobrepondo ao crime.

Outros pontos precisam ser esclarecidos. Três PMS foram até o apartamento após a perícia para realizar uma limpeza.


A defesa

A defesa questiona a competência da Justiça Militar para decretar a prisão e afirma que o oficial colaborou com as investigações. Também alega exposição indevida de aspectos da vida privada.


O que permanece

O que torna este caso a Imagem da Semana não é apenas a violência, mas a soma dos elementos impossíveis de ignorar que vieram à tona. Não foi uma única imagem.

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