PATROCINADORES

Entre prateleiras e algoritmos: como mudamos a forma de escolher livros

Aluizio Falcão Filho
4 de abril de 2026

Toda vez que entro em uma livraria, sou transportado para um mundo no qual tudo é possível. Através dos livros, podemos criar universos inteiros em nossas cabeças, viajar na inventividade alheia e expandir nossos horizontes através da ficção, de biografias ou ensaios. Ao devorar as páginas de uma publicação, podemos nos tornar mais cultos e informados. Ou criativos e reflexivos. O fato é que nunca terminamos uma leitura do mesmíssimo jeito que éramos na primeira página: sempre melhoramos com a leitura, por pior que seja o livro.

Ao admirar as grandes ilhas de exposição, com uma quantidade enorme de livros à disposição, lembrei-me que essa era uma das maneiras pelas quais escolhia que publicação comprar. Por isso, ficava horas nesses lugares. Quando não conhecia o autor ou não tinha lido uma resenha, eu prestava atenção no título, lia a orelha e a primeira página. Ou então, obedecia a um impulso e comprava o livro pela capa, o que era motivo para alguns arrependimentos.

Há uma semana, quando entrei em um desses estabelecimentos, percebi que meu método de compra de livros mudou radicalmente. Antes, eu passava pelo menos uma hora escolhendo o que ler. Desta vez, fiquei quinze minutos e fui embora sem nada embaixo do braço. Mas no meu celular havia várias fotos de livros que me interessaram, que provavelmente irei baixar em meu Kindle.

Hoje, a garotada compra os livros indicados no TikTok e isso tem influência direta sobre a lista de mais vendidos da revista Veja. É por isso, por exemplo, que há semanas em que Clarice Lispector ou Tostoi estão entre na lista dos mais vendidos. Apesar de lançados há décadas, esses volumes foram indicados pelos clubes virtuais de leitura e acabaram vendendo toneladas de cópias (ou gygabites) em questão de dias.

As vitrines digitais passaram a exercer um papel que antes pertencia às mesas de destaque das livrarias. A descoberta de novos autores ocorre cada vez mais por meio de vídeos curtos, resenhas rápidas e recomendações que se espalham em poucos minutos. A leitura deixou de ser apenas um hábito solitário para se tornar parte de uma conversa coletiva, impulsionada por algoritmos que aproximam pessoas com gostos semelhantes. Esse movimento acabou criando uma sensação de comunidade que influencia diretamente o que será lido nas próximas semanas. Uma espécie de clube do livro que, em vez de reunir amigos e vizinhos, engloba milhares (se não milhões) de pessoas.

Ao mesmo tempo, a relação física com o livro se transformou. O objeto, que antes precisava ser folheado para conquistar o leitor, agora disputa espaço com a praticidade dos kindles da vida e com a velocidade das compras digitais. A experiência de caminhar entre prateleiras continua sendo prazerosa, mas já não determina a escolha final. Eu, por exemplo, transito entre o ambiente físico e o virtual com naturalidade, combinando o encanto da livraria com a conveniência do download quase que instantâneo. Trata-se de um fenômeno deve acontecer com outros amantes da leitura.

Essa mudança de comportamento alterou também a lógica do mercado editorial. Obras que estavam há anos em relativo silêncio ganham nova vida quando redescobertas por influenciadores literários. Clássicos retornam às listas de mais vendidos, editoras correm para reimprimir títulos esgotados e autores distantes do grande público voltam a ser comentados. A circulação das ideias passou a depender menos do lançamento e mais da capacidade de um livro de se tornar assunto.

O resultado é um cenário no qual a leitura se reinventa continuamente. A tecnologia redefine hábitos, mas não diminui o fascínio que os livros exercem sobre quem os procura. A livraria permanece como um espaço de descoberta, mesmo quando a compra acontece depois. A curiosidade dos leitores continua viva. Mas foi adaptada aos novos tempos.

Nossos hábitos de leitura, no entanto, podem mudar, por conta dos algoritmos das livrarias digitais. Esses recursos têm o poder de nos colocar dentro de uma bolha literária, sugerindo títulos que têm mais a ver com nossas compras recentes. O que pode nos levar para fora dessa bolha? Curiosamente, o TikTok. Nos clubes digitais de leitura, todo o tipo de obra pode surgir e viralizar, como já aconteceu com Lispector e Machado de Assis. Mas há um caminho mais seguro: a indicação daquele amigo ou daquela amiga que gostam de ler e entendem como você pensa. Essa dica é muito melhor do que qualquer algoritmo. Por isso, se você precisa de uma indicação, pergunte ao seu amigo que gosta de ler. A conversa que surgirá dessa aproximação será muito melhor, tenho certeza, do que simplesmente buscar uma sugestão na livraria digital do kindle.

COMPARTILHE:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PATROCINADORES

Leia também

Em breve