Boletim de MR sobre medicina, pesquisa, inovação, saúde mental, negócios e políticas públicas
A ciência provou: lidar com gente do mal envelhece e adoece
As relações sociais são fundamentais para a saúde humana, contudo, a pesquisa tem se concentrado principalmente em suas dimensões de apoio. Investigamos o papel dos “incômodos”, pessoas em redes sociais próximas que criam problemas ou tornam a vida mais difícil, e descobrimos que esses laços negativos não são raros. E pior, são vivenciados de forma desproporcional por indivíduos que enfrentam maiores vulnerabilidades sociais e de saúde, e têm consequências para o envelhecimento. É o que revela uma série de pesquisas realizadas por universidades americanas condensadas pelo site PNAS (www.pnas.org).
Brasileiros testam campanha para rastrear HPV
O câncer do colo do útero é uma das doenças mais evitáveis da medicina moderna, o que falta para reduzir sua incidência são campanhas de conscientização e trabalhos de rastreio, uma deficiência grave na saúde pública de países pobres ou marcados por conflitos. A partir desse problema foi desenvolvido no Brasil o projeto Tenda+, criado para levar o rastreamento até mulheres com dificuldade de acesso ao sistema de saúde.
A iniciativa avalia se a combinação entre atendimento itinerante e tecnologia molecular poderia ampliar a detecção precoce do risco de câncer do colo do útero, causado pelo vírus HPV (papilomavírus humano) em populações sem acesso contínuos aos sistemas públicos. É a infecção sexualmente transmissível (IST) mais comum no mundo, afetando pele e mucosas.
Foram analisadas amostras de exame citológico convencional, conhecido por Papanicolau, e de genotipagem molecular do HPV, teste capaz de identificar em uma única análise 28 tipos virais. O alvo da pesquisa foram mulheres entre 18 e 79 anos das cidades satélites do Distrito Federal.
A genotipagem mostrou ser sete vezes mais eficaz que o teste de Papanicolau. A descoberta indica que é possível antecipar cuidados e acompanhar mais de perto as pacientes com maior probabilidade de desenvolver o que os médicos chamam de lesões precursoras. Outro objetivo do projeto é avaliar a eficácia das ações itinerantes em áreas precárias e que ficam de fora das estatísticas preventivas.
Os resultados dessa experiência serão apresentados no Eurogin 2026, um dos principais congressos internacionais dedicados ao estudo do HPV e dos cânceres associados ao vírus, realizado em Viena, na Áustria.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) pretende eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030. Para tanto, se vale de três caminhos:
- Prevenção: a vacina HPV, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), é a forma mais eficaz, recomendada para meninas e meninos de 9 a 14 anos. O uso de preservativos é importante, mas não oferece proteção total, pois o vírus pode estar em áreas não cobertas.
- Rastreamento e diagnóstico: detectado via exames clínicos, preventivo (Papanicolau) ou testes moleculares.
- Tratamento precoce: não há cura para o vírus, mas as lesões podem ser tratadas
O que é preciso entender sobre a polilaminina

A pesquisa com a polilaminina, desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a farmacêutica Cristália, alcançou grande visibilidade nos últimos dias. No entanto, algumas perguntas ainda precisam ser respondidas para que se possa afirmar sem dúvida que a substância é capaz de ajudar pessoas com lesão medular a recuperar seus movimentos. Apesar de os trabalhos, liderados pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho, terem sido iniciados há mais de 25 anos, a maior parte desse tempo foi dedicada aos testes em laboratório, uma etapa essencial chamada de fase pré-clínica. A substância foi descoberta por acaso pela professora, quando ela tentava dissociar as partes que compõem a laminina, uma proteína presente em várias partes do nosso corpo.
Ao testar um solvente, ela viu que, ao invés de se partir, as moléculas de laminina começaram a se juntar umas com as outras, formando uma rede, a polilaminina. Essa junção ocorre no organismo humano, mas nunca tinha sido reproduzida em laboratório.
A partir daí, Tatiana passou a pesquisar possíveis usos para a rede de lamininas e descobriu que, no sistema nervoso, essas proteínas atuam como base para a movimentação dos axônios, partes dos neurônios parecidas com caudas, responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e químicos.
Normalmente, as células do sistema nervoso não são capazes de se regenerar sozinhas. O que se pretende testar, portanto, é a capacidade da polilaminina de oferecer uma nova base para que os axônios do paciente voltem a crescer e se comunicar, restabelecendo a conexão que transmite os comandos do cérebro.
Depois de obter resultados positivos em ratos, os pesquisadores realizaram um estudo-piloto, entre os anos de 2016 e 2021, aplicando a substância em oito pessoas que sofreram lesão total em diversos pontos da medula, após queda, acidente de carro ou ferimento por arma de fogo.
Além de receber a polilaminina, sete delas passaram por cirurgia de descompressão da coluna, operação padrão em casos de lesão medular. Os procedimentos foram feitos até três dias após a lesão.
Duas pessoas morreram ainda no hospital por causa da gravidade do quadro, e outra acabou falecendo pouco tempo depois por complicações do ferimento.
Mas os cinco pacientes que se recuperaram, receberam a polilaminina e passaram pela cirurgia de descompressão apresentaram algum ganho motor, ou seja, conseguiram movimentar partes do corpo paralisadas pela lesão. No entanto, isso não significa que todos voltaram a andar.
O que vem agora
O professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Eduardo Zimmer, explica que, tradicionalmente, o ensaio clínico de um novo medicamento é composto por três fases. E cada rodada de testes tem um objetivo.
“Na fase 1, a gente tem poucos pacientes, saudáveis, porque ela visa identificar se o composto é seguro e se os humanos vão tolerar receber esse tratamento. Junto com isso, tem o que a gente chama de farmacocinética. Entender como é que a droga se comporta dentro do nosso organismo, como ela entra, como ela é metabolizada e como ela é eliminada”, explica.
É nesta fase que o estudo com a polilaminina está. De acordo com a líder da pesquisa, a professora Tatiana Sampaio Coelho, os testes devem começar neste mês e ser concluídos até o fim do ano.
Mas eles terão uma diferença importante do padrão. Como a polilaminina é aplicada por injeção diretamente na medula, isso não será feito em pacientes saudáveis, mas também em pessoas com lesão medular aguda.
Conforme aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a substância será aplicada em cinco pacientes voluntários. Eles precisarão ter idades entre 18 e 72 anos e lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão. O procedimento será feito no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Mas o estudo terá também outra especificidade, de acordo com a pesquisadora. “O fato de serem pessoas com lesão medular significa que os resultados de indicação de eficácia já serão emitidos desde a fase 1”. Ou seja, os pesquisadores também pretendem observar se esses pacientes apresentam melhora, o que diverge do percurso clássico.
O que MR publicou
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Drogas recreativas podem mais que dobrar o risco de AVC
O uso de drogas recreativas pode mais que dobrar o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVC), com alguns dos impactos mais preocupantes observados entre os mais jovens, sugere uma revisão. Cientistas analisaram dados médicos de mais de 100 milhões de pessoas e descobriram que o risco de AVC era 122% maior para usuários de anfetaminas e 96% maior para usuários de cocaína, em comparação com aqueles que não usavam essas drogas. Usuáriosde cannabis também apresentaram maior risco, sofrendo 37% mais AVCs do que não usuários, segundo a revisão. No entanto, os pesquisadores não encontraram evidências de que opioides, analgésicos altamente viciantes, contribuam para o risco de AVC. A pesquisa foi conduzida pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Anvisa aprova novos medicamentos para diabetes
A Anvisa aprovou novos medicamentos para o tratamento do diabetes tipo 1, para o câncer de mama e para o angioedema hereditário. A agência aprovou o Tzield (teplizumabe), indicado para retardar o início do diabetes tipo 1, estágio 3, em pacientes adultos e pediátricos com 8 anos de idade ou mais que já estejam no estágio 2. O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune grave e de longa duração, que costuma se manifestar na infância e pode gerar aumento de complicações, como doenças cardíacas, renais e oculares.
Medicamento para epilepsia resistente é aprovado
A Anvisa também aprovou um novo medicamento indicado para o tratamento de crises focais em adultos com epilepsia fármaco resistente, o Xcopri (cenobamato), da Momenta. Pacientes com essa condição ainda apresentam crises mesmo após recorrer a pelo menos dois tratamentos diferentes, situação que chega a acometer cerca de 30% das pessoas com epilepsia. O cenobamato reduz a atividade elétrica anormal no cérebro, o que diminui a incidência desses episódios.
