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Em tempos de 6×1, há também o debate sobre outro número: 996

Aluizio Falcão Filho
16 de fevereiro de 2026

Nos próximos dias, a Câmara Federal vai discutir uma alternativa à jornada de trabalho, trocando o regime 6×1 para 5×2. Estamos debatendo a inclusão de um dia de folga a mais para os trabalhadores, o que está tirando o sono de muitos empregadores. Mas, no exterior, há também outro tipo de discussão, em torno de pessoas que trabalham obsessivamente e não estão preocupadas em lazer. Trata-se da jornada 996.

O fenômeno 996 nasceu no ambiente hipercompetitivo das startups chinesas durante a década de 2010, quando o país vivia uma explosão de investimentos em tecnologia e buscava alcançar — e superar — o Vale do Silício. Nesse contexto, trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana, tornou‑se quase um símbolo de patriotismo corporativo e de compromisso com o crescimento acelerado. Empresas como Alibaba e Huawei ajudaram a normalizar essa lógica, apresentando longas jornadas como parte natural do processo de construção de gigantes globais.

No Vale do Silício, embora a cultura de trabalho extremo não tenha surgido com o mesmo nome, a mentalidade equivalente sempre existiu em startups que valorizam velocidade acima de tudo. Com a corrida atual por avanços em inteligência artificial, essa dinâmica se intensificou. Laboratórios e empresas emergentes passaram a operar em ritmo semelhante ao 996, impulsionados pela sensação de que cada semana perdida significa ficar atrás de concorrentes que se movem rapidamente.

Executivos ambiciosos desempenham papel central na perpetuação desse modelo. Muitos deles enxergam o 996 como uma prova de dedicação absoluta, tanto para si quanto para suas equipes. A crença de que “só os mais comprometidos vencem” cria uma narrativa sedutora: trabalhar mais horas seria um atalho para resultados extraordinários, para a construção de produtos revolucionários e para a conquista de mercados inteiros. Essa visão, embora contestada por especialistas em produtividade, continua atraindo líderes que associam sacrifício pessoal a impacto global.

Hoje, o 996 se mantém vivo justamente porque dialoga com esse tipo de ambição. Em setores onde a competição é feroz e o tempo é tratado como recurso estratégico, muitos executivos adotam jornadas extenuantes como parte de sua identidade profissional. Eles se veem como atletas de alta performance, dispostos a ultrapassar limites para alcançar objetivos grandiosos. O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que essa mentalidade impulsiona inovação, também alimenta ciclos de exaustão e desgaste que desafiam a sustentabilidade do próprio modelo.

Esses maratonistas do trabalho são os novos workaholics. E são o oposto daqueles que enxergam o trabalho como um sacrifício e só se sentem vivos quando não estão no escritório.

Mas ambos representam um exagero que não é saudável. E é justamente nesse ponto que o debate sobre jornadas de trabalho ganha outra camada: não se trata apenas de escolher entre mais folga ou mais horas, mas de repensar a relação que construímos com o próprio ato de trabalhar. Quando extremos opostos — o cansaço crônico de quem vive no 996 e a aversão total de quem só espera o fim do expediente — passam a dominar a conversa, fica claro que o verdadeiro desafio é encontrar um meio-termo que preserve ambição sem sacrificar bem‑estar. Em um mundo que discute 6×1, 5×2 ou 996, talvez variável mais importante seja aquela que ainda não aprendemos a calcular: o equilíbrio.

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