O presidente americano, Donald Trump, chamou o New York Times de “falido” nesta semana. Mas o balanço do jornal saiu alguns dias depois da declaração – e os números mostram uma realidade diferente. Impulsionado por 12,8 milhões de assinantes (a maioria digital), o NYT registrou faturamento de US$ 2,83 bilhões e lucro de US$ 581 milhões.
Vamos voltar ao ano de 1994, quando surgiu a internet e os veículos de papel estavam no auge. Naquele ano, a circulação diária girava em torno de 1,15 milhão de exemplares impressos, sustentando um faturamento de US$ 2,36 bilhões e lucro líquido de US$ 120,6 milhões. A publicidade em papel e as vendas no varejo garantiam estabilidade operacional. Mas os custos de impressão e de distribuição eram enormes.
Com a ascensão dos veículos eletrônicos, a empresa jornalística da família Ochs-Sulzberger viveu dias difíceis. Em 2010, o NYT rodava 906.000 exemplares diariamente, com lucro líquido despencando para a marca de US$ 19,9 milhões. A erosão acelerada da publicidade impressa e os custos fixos de uma operação analógica deixaram evidente a vulnerabilidade do grupo às mudanças de hábito do leitor e a urgência de um novo modelo de negócios.
Quando isso ocorreu, com o surgimento do paywall em 2011, muitos analistas torceram o nariz. Afinal, poucas iniciativas do gênero tinham dado certo até então e a internet era um território de publicações gratuitas. Nos primeiros doze meses, porém, a empresa conseguiu vender cerca de 400.000 assinaturas digitais (100.000 apenas nas três primeiras semanas), diante de uma meta de 300.000 contratos. Um sucesso absoluto.
O New York Times tem alcance mundial – e a tecnologia permitiu que suas reportagens chegassem a todo o globo de forma instantânea. Na época do papel, porém, isso era bem difícil. De 2003 a 2011, fui assinante do NYT em sua versão impressa. O sistema de distribuição era ruim. Na quarta-feira, recebia as edições de quinta a domingo da semana anterior; na sexta, as de segunda a quarta. Por que alguém teria interesse de ler jornais publicados dias atrás? É que o NYT trazia artigos que sobreviviam ao tempo e serviam de inspiração para pautas locais. Trata-se de um hábito que carrego até hoje. Mas uso meu contrapeso particular para evitar algumas armadilhas ideológicas que estão em suas páginas.
Voltando ao resultado de 2025: o salto recente do jornal só foi possível porque a empresa decidiu transformar sua identidade sem abandonar o que a tornou relevante desde 1851: o investimento pesado em jornalismo. Pode-se criticar a linha editorial da publicação, mas é inegável o seu poder de influência em todo o mundo e a solidez com a qual se manteve no mercado por quase dois séculos.
A partir de 2015, o NYT acelerou a estratégia digital, ampliou equipes de tecnologia, fortaleceu o jornalismo investigativo e diversificou produtos. O resultado foi um portfólio que vai muito além do noticiário: jogos como Wordle, aplicativos de receitas, newsletters premium e podcasts de grande audiência criaram um ecossistema de assinaturas capaz de atrair públicos distintos e reduzir a dependência da publicidade.
Outro fator decisivo foi a aposta em tecnologia própria. O Times desenvolveu sistemas de recomendação e investiu em design para tornar a leitura de notícias mais fluida. A empresa também passou a usar dados para entender o comportamento dos assinantes, identificar temas que engajavam mais os leitores e ajustar sua oferta editorial. Essa combinação de jornalismo com engenharia de ponta permitiu ao NYT competir com gigantes digitais e consolidar uma base global de leitores pagantes, algo impensável na era do papel.
O resultado robusto, portanto, não é obra do acaso. Ele reflete uma estratégia de longo prazo que reposicionou o jornal fundado no século 19 como uma potência digital do século 21. Em vez de sucumbir à crise que devastou redações tradicionais, o New York Times reinventou sua estratégia, ampliou a relevância internacional e provou que jornalismo profissional pode prosperar em um ambiente dominado por plataformas tecnológicas. A declaração de que o jornal estaria “falido” contrasta com uma realidade em que o NYT se tornou, ironicamente, um dos casos mais bem-sucedidos de transformação digital no setor de mídia.
Uma resposta
Excelente análise desse mestre do jornalismo que é o Aluísio Falcão Filho. A mídia impressa continua extremamente importante até porque traz muito mais conteúdo e facilidade de destaque para selecao de leitura mas com certeza o digital ganha números muito maiores se a estratégia for bem feita como o faz o NYT. Parabens, Aluizio!