Encontrar ligações inusitadas entre personagens que aparentemente nada têm a ver entre si é um grande prazer para mim. E, durante as férias de janeiro, fui brindado com uma dessas oportunidades, ao ler “Os perigos do imperador: um romance do segundo reinado”, de Ruy Castro.
A narrativa conta parte da vida de Dom Pedro II durante os preparativos e os fatos ocorridos em uma viagem aos Estados Unidos (quando ele participou de uma feira na qual o telefone foi apresentado por seu inventor, Graham Bell; o imperador brasileiro foi a pessoa que recebeu a primeira ligação, feita pelo próprio Bell). O autor usou de seu talento de pesquisa para recriar vários acontecimentos deste momento histórico e aproveitou para enfiar elementos de ficção, como um suposto complô de republicanos para assassinar o dinasta no Madison Square Garden, durante uma apresentação de circo.
Ruy Castro coloca alguns personagens de ficção para contar essa história (assim como “documentos” criados por sua imaginação) e os mistura com pessoas de verdade. Mas, no meio do périplo de Dom Pedro em solo americano, ele narra o encontro do imperador com alguém que só existiu no terreno da ficção – e que é lembrado por poucos.
Trata-se do Paladino do Oeste, ídolo da televisão dos anos 1950 e 1960, cujo seriado foi reprisado até o início da década de 1970 na televisão brasileira. O personagem, vivido pelo ator Richard Boone (na imagem, à direita), é uma espécie de investigador particular e pistoleiro nas horas vagas. Sempre se veste de negro e tem um cartão de visitas com os dizeres “Have Gun. Will Travel (“Tenho arma. Vou viajar”)”. Esse, inclusive, é o nome original do seriado.
Pois o escritor conseguiu colocar Dom Pedro e o Paladino juntos na narrativa.
“Logo na manhã seguinte à chegada, foi apresentado a um eminente hóspede fixo do hotel, o sr. John Paladin, egresso da Academia Militar de West Point e oficial reformado da Cavalaria, com notável atuação durante a Guerra Civil. […] Seu cartão de visita, por sinal, é ilustrado pelo cavalo do xadrez, e ele leva no alforje seu instrumento de trabalho: um Colt 45 exclusivo da Cavalaria. Seu dístico profissional no cartão se limita, aliás, às palavras: “Tenho revólver. Posso viajar”.
Ruy Castro faz esse encontro improvável soar tão natural que a gente quase aceita, sem pestanejar, que Dom Pedro II realmente dividiu o saguão de um hotel americano com um pistoleiro de TV. A graça está justamente nessa ousadia: o autor não apenas mistura épocas, como também nos convence de que alguns personagens sempre estiveram prontos para serem embaralhados.
E, no fim, o leitor se pega rindo sozinho, imaginando o monarca brasileiro jogando conversa fora com o tal Paladino. É esse tipo de travessura literária que transforma a leitura em um jogo delicioso: quando a trama resolve brincar com o próprio enredo, nós embarcamos felizes no chiste e ainda agradecemos pela viagem.
Em uma entrevista, o escritor resumiu bem o espírito deste livro, que é de 2022, mas conheci apenas agora: “É tudo verdade, menos a história”. Não é à toa que venceu o Prêmio Jabuti de 2023. Vale a pena.