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Davos vira palco de tensão com chegada de Trump

Lorena Scavone Giron
19 de janeiro de 2026
Disputa pela Groenlândia, ameaças tarifárias e ausência de líderes reforçam clima de incerteza no Fórum Econômico Mundial

A pequena cidade nos Alpes suíços se prepara para receber líderes políticos e empresariais de todo o mundo sob um clima raro de apreensão. O Donald Trump é esperado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em meio a uma escalada de tensões geopolíticas que envolve a União Europeia, a Groenlândia e aliados históricos dos Estados Unidos.

A expectativa é que Trump chegue à cidade na noite de terça-feira (20) e discurse na principal plenária do fórum na manhã de quarta-feira (21). A agenda do presidente americano, no entanto, segue sob sigilo. Fontes do evento indicam reuniões reservadas com autoridades e executivos globais, enquanto o esquema de segurança — tradicionalmente rígido — foi reforçado diante do contexto internacional mais instável.

Um dos símbolos dessa presença é a chamada “Casa dos EUA”, instalada em um antigo prédio que funcionava como igreja e agora rebatizado de “O Santuário”. O espaço recebeu investimentos de cerca de US$ 1 milhão, com apoio de empresas como Microsoft e McKinsey, e deve servir como base diplomática informal da delegação americana.

Groenlândia amplia fissuras entre EUA e Europa

As tensões entre Washington e a União Europeia se intensificaram nos últimos dias após novas declarações de Trump defendendo a anexação da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca. Em resposta, autoridades europeias passaram a discutir medidas de retaliação, incluindo a imposição de tarifas de até € 93 bilhões sobre produtos americanos ou restrições ao acesso de empresas dos EUA ao mercado europeu. O episódio levou o governo dinamarquês a anunciar que não enviará representantes ao fórum neste ano, em um gesto raro de boicote diplomático.

A crise ganhou novos contornos no fim de semana após revelações de que Trump teria associado sua ofensiva sobre a Groenlândia ao fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Segundo autoridades europeias ouvidas pelo The New York Times, o presidente americano enviou uma mensagem ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, afirmando que, após a negativa do Nobel, já não se sentia obrigado a “pensar exclusivamente na paz”.

As declarações aumentaram a apreensão nos mercados financeiros globais: o índice Stoxx Europe recuou mais de 1% nesta segunda-feira (19), enquanto ativos considerados porto seguro, como ouro e prata, atingiram níveis recordes, refletindo o temor de uma escalada diplomática e comercial entre Estados Unidos e Europa.

No fim de semana, a União Europeia avaliava a possibilidade de retaliar os EUA com tarifas de até € 93 bilhões ou restringir o acesso de empresas americanas ao mercado europeu, em resposta às ameaças comerciais feitas por Trump contra países aliados da Otan.

Brasil terá participação reduzida

O Brasil também estará representado de forma discreta no encontro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participará do fórum pelo terceiro ano consecutivo em seu atual mandato. A única representante do governo brasileiro será a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, que comandará o grupo de governo da Colaboração, formado por dez países, além de presidir reuniões sobre cooperação digital e discutir perspectivas de crescimento para a América Latina.

Inicialmente, as ministras Simone Tebet e Marina Silva constavam na programação, mas desistiram da viagem.

Fórum sob pressão

Além da Groenlândia, outros temas sensíveis orbitam Davos: a guerra na Ucrânia, a situação em Gaza, a Venezuela e o redesenho da ordem econômica global. Trump deve usar o palco para defender sua agenda econômica doméstica e pressionar líderes europeus a rever políticas que, segundo a Casa Branca, estariam travando o crescimento do continente.

Diplomatas e analistas avaliam que o encontro deste ano pode marcar um ponto de inflexão nas relações internacionais. Em um ambiente historicamente dedicado ao consenso e à cooperação, Davos 2026 começa com discursos afiados, cadeiras vazias e a sensação de que o que acontece nos Alpes suíços dificilmente ficará restrito às montanhas.

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