“Brasil no espelho”, de Felipe Nunes, foi um dos livros que li nestas férias. O texto é uma descrição detalhada de uma pesquisa feita pelo instituto Quaest, do qual Nunes é CEO, sobre os brasileiros. Trata-se de um estudo que esmiuça como pensa, age e sente aquele que nasce e vive em nosso país. Um capítulo em especial me chamou a atenção: o que versa sobre religião e família.
No início deste trecho, Nunes fala sobre a retração do catolicismo e o crescimento das igrejas evangélicas no país – assim como os preconceitos enfrentados por aqueles que seguem religiões de matriz africana. Mas o que me impressionou mesmo foi os detalhes sobre a importância da família para os brasileiros.
“É impossível escrever o brasileiro sem sua família. Os brasileiros querem a sua família presente em todos os momentos, esperam ansiosamente para se reunir com ela aos domingos, acreditam que ela estará a seu lado para celebrar os momentos bons e dividir os ruins. […] Para 96% dos brasileiros, a família é a coisa mais importante da vida. […] A família está no centro da existência, das relações sociais e das motivações nas tomadas de decisão”, escreve o autor nesta passagem.
Não é à toa que os políticos (em especial aqueles alinhados à direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro) falam tanto na valorização da esfera familiar em seus discursos ou postagens. Este e outros estudos referendam o peso que esse tópico tem para nossos concidadãos.
Mas por que esse capítulo em especial teve tanta importância para mim?
Quando era criança, sentia que havia algo diferente entre mim e meus colegas. Nunca soube ao certo qual seria esta diferença. Mas, ao ler as palavras de Nunes, descobri instantaneamente o que havia de peculiar em minha vida: foi a falta de uma estrutura familiar substancial, como acontecia na casa de vizinhos e de amigos.
Eu nasci no Recife e vim ainda pequeno para São Paulo. Com isso, não experimentei algo que meus amigos tinham pelo menos uma vez por semana: a convivência com os avós. A minha avó materna, Arlinda, por exemplo, morreu quando eu tinha seis anos. Lembro de ver minha mãe chorando a morte dela e lembro também que senti uma certa culpa, pois não fiquei chateado como achava que deveria ter ficado (muito provavelmente por conta da falta de convívio).
O falecimento da minha avó, às vésperas do Natal, também contaminou a comemoração dessa data, geralmente um pretexto para a reunião de familiares. Com o tempo, alguns parentes de Pernambuco vieram morar em São Paulo, mas minha mãe foi se afastando de sua família, assim como o meu pai do irmão que também tentou ganhar a vida por aqui (depois, foi morar em Paris e estudar na Sorbonne). Para coroar esse processo, meus pais se separaram quando eu tinha doze anos. E nossa unidade familiar, que já era pequena, ficou ainda menor.
Percebo hoje como a falta de uma família grande me tornou uma pessoa diferente das demais. Não melhor ou pior – apenas dissemelhante.
Os brasileiros têm uma grande diferença neste quesito em relação aos americanos. Os jovens nos Estados Unidos, de maneira geral, deixam suas casas ao final da adolescência para estudar em faculdades que invariavelmente estão em outros estados. Com isso, qualquer dependência emocional em relação aos parentes é cortada na marra. E, desta forma, os jovens americanos têm maiores chances de se tornarem mais independentes que os brasileiros. Mas será que os nossos compatriotas não se sentem mais autoconfiantes do que os residentes nos EUA? Provavelmente não existe um lado certo neste debate, um tipo de discussão que não terminaria tão cedo se iniciada.
Encerrei aquele capítulo com a sensação de ter encontrado não apenas o retrato de um país, mas uma pista importante sobre a minha própria história. Talvez a família seja mesmo o eixo da vida brasileira, mas cada um aprende a orbitar em torno daquilo que tem. Alguns herdam laços, outros os constroem devagar, como quem acende aos poucos pequenas luzes no escuro. E é nesse gesto silencioso de autocriação que também vai se revelando o Brasil que somos. E no mapa que vamos desenhando em nossos corações e mentes, a famíla tem um lugar para lá de especial.