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Razão em tempos de cólera

Lorena Scavone Giron
22 de janeiro de 2026
Em “Nem comunista, nem fascista”, Diogo Schelp argumenta que a verdadeira disputa do nosso tempo não é entre esquerda e direita, mas entre o radicalismo que desumaniza e a racionalidade que preserva a democracia

A arena política dedica os últimos anos a desvendar, rascunhar, definir e criticar os mecanismos da polarização política sem, necessariamente, debater a criação de consensos e dissensos à direita e à esquerda sem se perder em gritarias e desonestidades intelectuais de parte a parte. O resultado é um debate público cada vez mais empobrecido, no qual a complexidade vira suspeita e a dúvida, um defeito moral. É nesse terreno hostil que a moderação passou a ser tratada não como virtude, mas como sinônimo de omissão.

No livro Nem comunista, nem fascista: guia de resistência para moderados (São Paulo: Edições 70, 2025), Diogo Schelp parte de uma premissa incômoda: o conflito central hoje não é ideológico, mas comportamental. Ele diferencia a polarização programática da polarização afetiva, onde o adversário deixa de ser um oponente legítimo e passa a ser visto como um inimigo moral a ser eliminado. Sobre essa estratégia dos radicais em asfixiar o pensamento crítico, Schelp escreve:

“Em um mundo de extremismos não há lugar para o bom senso, para a moderação, apenas para polos que se excluem mutuamente, pois é exatamente isso que os radicais querem: eliminar o espaço que existe entre eles e o inimigo, o espaço para a dúvida, a ponderação e a avaliação racional das ideias.”

Nesse ambiente, as redes sociais atuam como catalisadores do ódio, onde algoritmos punem a nuance e premiam o grito. Para resistir, o autor sugere instrumentos práticos, como a busca ativa por 70% de informações informativas contra 30% de opinativas, evitando que o cidadão se torne refém de bolhas ideológicas. No Brasil, onde o binarismo “petismo vs. antipetismo” mascara o fato de que quase metade da população não se sente representada por nenhum dos polos, essa dieta informativa é uma ferramenta de sobrevivência psíquica e política.

O livro desmonta o mito de que moderação equivale à fraqueza. Ao contrário, Schelp apresenta a postura moderada como uma forma ativa de resistência que exige autocontrole e coragem para sustentar posições racionais sob pressão. Defender a democracia liberal — imperfeita e plural por natureza — exige enfrentar o simplismo dos extremos que tratam qualquer ponderação como traição. É um guia provocador para quem entende que a liberdade exige o reconhecimento do outro, mesmo na divergência.

Em tempos de cólera, a moderação deixa de ser zona de conforto e se torna trincheira. Escolher a razão e o compromisso com os fatos é, paradoxalmente, o gesto mais radical e necessário que nos resta. Como Schelp defende, apenas pela via da moderação poderemos construir uma sociedade verdadeiramente livre, onde o debate de ideias prevaleça sobre a aniquilação de reputações.

Diogo Schelp / Foto: Claudio Gatti
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