Tecnologias de análise de imagens aceleram buscas em áreas remotas e ganham espaço como aliadas centrais em operações de resgate
Ferramentas de inteligência artificial e drones estão mudando o jogo em missões de busca e salvamento em regiões de difícil acesso. Um caso recente nos Alpes italianos mostrou como essas tecnologias podem reduzir drasticamente o tempo de procura — de semanas para poucas horas — e ampliar as chances de localizar pessoas desaparecidas. As informações são da BBC.
O episódio ocorreu na região do Piemonte, no norte da Itália. O alpinista e cirurgião ortopédico italiano Nicola Ivaldo, de 66 anos, desapareceu após sair sozinho para escalar uma montanha em setembro de 2024. Sem informar familiares ou amigos sobre o trajeto, deixou como único vestígio o carro estacionado em um vilarejo nos arredores do maciço do Monviso, um dos picos mais altos e técnicos da região.
As buscas iniciais mobilizaram dezenas de socorristas, helicópteros e dias de varredura em trilhas e paredões rochosos. O avanço do mau tempo e da neve forçou a interrupção da operação, sem sucesso. Meses depois, com o degelo do verão europeu, a missão foi retomada, desta vez com um reforço decisivo: drones equipados com câmeras de alta resolução e softwares de IA capazes de analisar milhares de imagens em poucas horas.
Os drones mapearam cerca de 183 hectares da encosta da montanha, capturando mais de 2.600 fotos. Em vez de depender apenas da análise humana, as imagens foram processadas por algoritmos treinados para identificar “anomalias visuais”, como variações incomuns de cor ou textura na paisagem. Em questão de horas, o sistema indicou alguns pontos de interesse para verificação.
Um desses sinais era apenas um pequeno ponto vermelho em meio ao branco da neve e ao cinza das rochas. O software havia destacado o detalhe mesmo estando à sombra. Ao retornar ao local indicado, os socorristas confirmaram: tratava-se do capacete de Ivaldo. O corpo foi encontrado em um canal íngreme da face norte do Monviso, a mais de 3.100 metros de altitude, e removido com apoio de helicóptero.
Embora o desfecho tenha sido trágico, o caso é considerado um marco para o uso de IA em operações de resgate. Segundo os responsáveis pela missão, sem a triagem automatizada das imagens o local provavelmente jamais teria sido identificado. A tecnologia não substitui o olhar humano, mas funciona como um filtro poderoso, capaz de direcionar equipes para áreas realmente relevantes.
Experiências semelhantes já ocorreram em outros países europeus, como Polônia, Áustria, Reino Unido e Escócia, tanto em resgates com sobreviventes quanto na localização de corpos. Ainda assim, especialistas alertam para limitações: florestas densas, terrenos muito fragmentados e baixa visibilidade reduzem a eficácia dos algoritmos, que também podem gerar falsos positivos.

Apesar dos desafios técnicos e das discussões éticas sobre o uso de imagens aéreas para identificar pessoas, a tendência é clara. Com recursos escassos, terrenos hostis e o tempo como fator crítico, drones e inteligência artificial deixam de ser experimentos pontuais e passam a ocupar um papel cada vez mais estratégico nas missões de busca e salvamento. Em alguns casos, a diferença entre encontrar alguém a tempo — ou não.
