Já faz algumas décadas que eu tenho um ritual no primeiro dia do ano: cantarolar a música “Nova Estação”, de Luiz Guedes e Thomas Roth, que foi apresentada ao público pela primeira vez no festival MPB 80, da TV Globo. Imortalizada por Elis Regina, a canção espelha perfeitamente o que esperamos de um recomeço, com versos simples e diretos: “Nova esperança/ Bate coração/ Renascer cada dia/ Com a luz da manhã/ Despertar sem medo/ Enganar a dor/ Disfarçar essa mágoa/ Que anda solta no ar/ Ter que acreditar/ No regresso da estação/ Como o sol volta a brilhar/ Com as chuvas de verão/ Ter que acreditar/ Só pra ter razão/ De sonhar mais uma vez”.
Tive o privilégio de conhecer Thomas Roth (imagem) há alguns anos, em um almoço na casa do publicitário Antônio Lino, quando fomos brindados por um show particular. Desde então, trocamos eventualmente mensagens e comentários sobre esse circo infinito que é a política brasileira.
Thomas conta que essa canção foi composta no início dos anos 1980, com a abertura política que se desenhava na nação. Talvez estejamos precisando de uma mensagem de esperança – que é defendida na letra – em um momento tão delicado e sacudido por uma polarização política que impede a união de todos em torno de ideais mais nobres. “Que essa música possa, de fato, acenar para novos tempos em nosso país”, diz ele. “Não podemos desperdiçar mais tantos anos, tantas oportunidades e possibilidades que o Brasil poderia estar vivendo, né?”.
Essa composição faz parte da mesma safra que produziu “Canção de Verão”, o maior sucesso da dupla, que explodiu em uma gravação da banda “Roupa Nova” e foi incluída na trilha sonora da novela “Três Marias” (na década de 1980, isso era um verdadeiro passaporte de sucesso de qualquer música).
Como “Nova Estação”, traz uma letra com metáforas políticas nas entrelinhas. “Muitos a veem como um ‘hino ao verão’”, afirma Thomas. “Mas, na verdade, é um hino à abertura política que já se desenhava cada vez mais clara naquela época”.
Vamos a alguns versos: “É como o sol de verão/ Queimando no peito/ Nasce um novo desejo/ Em meu coração/ É uma nova canção/ Rolando no vento/ Sinto a magia do amor/ Na palma da mão/ É verão, bom sinal, já é tempo/ De abrir o coração e sonhar/ É verão, bom sinal, já é tempo/ De abrir o coração e sonhar”. O refrão, por sinal, tem uma pegada “Hey Jude”, dos Beatles, pois não tem palavras – é aquela parte contagiante em que todos cantam: “Parará-pararara-parará-pararará”.
As duas canções têm o DNA de um legítimo sucesso da cena pop. São letras simples, que grudam feito chiclete na mente e passam um recado que é importante neste dia: precisamos recomeçar sempre com esperança e fé.
E talvez seja isso que essas duas músicas nos lembram, ano após ano: por mais turbulento que seja o mundo lá fora, sempre existe uma esperança capaz de dar início a uma nova estação dentro de nós. Que o primeiro dia do ano venha acompanhado dessa trilha sonora (ou daquela de sua preferência) para que possamos seguir adiante com o coração mais aberto e a alma um pouco mais leve.
Respostas de 3
Aluízio, começamos bem o ano. Duas ótimas músicas, e de um amigo muito querido.
Que comecemos essa nova estação com muito saúde e paz. Um ótimo ano pra você e os seus familiares e amigos.
Aluiziu, que saudades dessas duas canções. Feliz 2026 meu amigo.
Querido Aluízio
Demorei para responder porque estava numa região da Patagônia Argentina onde a internet é precária.
Antes de mais nada, agradeço, de coração, sua gentileza e oportunidade, ao citar duas das minhas composições. É um privilégio, poder receber esse presente. Ter minhas obras comentadas por um jornalista com tanto prestígio e tão renomado como vc, faz meu ano começar com “o pé direito” rsrsrsrs
Acompanho suas colunas/matérias e conheço o grau de seriedade e profundidade das suas análises, daí a minha gratidão.
Aproveito para desejar a vc, à Cris e toda a equipe do Money Report, em excelente 2026. Forte abraço!!