Há quem acredite que atacar a Venezuela faria parte do “tornar a América grande novamente”, mas os EUA só mergulhariam mais fundo no autoritarismo
Nota da edição
Uma das características importantes do libertarianismo é a oposição ao envolvimento em guerras. O texto a seguir irá discutir os impactos negativos – sejam eles em termos de vidas, despesas do governo ou liberdades civis dentro do próprio território americano – que uma intervenção na Venezuela por parte dos Estados Unidos traria. Por mais nefasto e destruidor que o regime socialista de Nicolás Maduro seja, é necessário que as lideranças mundiais não caiam na “arrogância fatal” de se julgar aptas a construírem um governo melhor por meio de uma guerra que pode custear a vida de muitos inocentes.
O New York Times acabou de publicar um excelente editorial sobre a direção perigosa para a qual os Estados Unidos estão se encaminhando sob o governo do presidente Trump. O texto tem o título “Are We Losing Our Democracy?” [“Estamos perdendo nossa democracia?” em tradução livre] e lista doze fatores que apontam para a trajetória americana rumo ao autoritarismo. Recomendo fortemente a leitura.
Trump e o aparato de segurança nacional dos EUA estão agora acelerando a queda do país em direção ao autoritarismo com suas operações violentas e letais de mudança de regime na Venezuela. Usando o esquema de décadas conhecido como “guerra às drogas”, Trump, o Pentágono e a CIA estão matando ilegalmente pessoas inocentes em alto-mar, envolvendo-se em intervenções da CIA dentro da Venezuela (incluindo, sem dúvida, assassinatos patrocinados pelo estado) e agora ameaçando lançar ataques diretos de bombardeio militar contra a própria Venezuela. Como observou Randolph Bourne, “a guerra é a saúde do estado”.
Enquanto isso, depois de oscilar repetidas vezes em sua posição sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Trump parece finalmente ter se decidido a favor da Ucrânia. Sem dúvida, o Pentágono desempenhou um papel importante em influenciá-lo nessa direção, já que é o próprio Pentágono, operando por meio de seu dinossauro da Guerra Fria, a Otan, o verdadeiro responsável por travar a guerra contra a Rússia, usando a Ucrânia em uma guerra por procuração.
Por que menciono a Ucrânia no contexto do que está acontecendo com a Venezuela? Porque é irônico que, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, autoridades dos EUA e seus apoiadores na grande mídia tenham condenado a Rússia por sua “guerra de agressão não provocada” contra a Ucrânia, ignorando completamente o papel que a Otan (isto é, o Pentágono) desempenhou ao provocar intencionalmente a invasão russa.
E por que isso é irônico? Porque essas mesmas autoridades americanas e muitos de seus seguidores na imprensa tradicional agora não demonstram qualquer indignação diante da agressão dos EUA contra a Venezuela! É como se a agressão americana não tivesse importância alguma, enquanto a suposta agressão russa representasse uma tentativa de conquistar o mundo. (Em seu favor, o New York Times, em seu editorial, condena os assassinatos extrajudiciais de Trump e do Pentágono no Caribe, classificando-os como “um desafio às leis dos EUA e ao direito internacional”).
Os assassinatos ilegais de Trump e do Pentágono no Caribe e o intervencionismo paramilitar da CIA na Venezuela já são suficientemente graves. Mas não se engane: se Trump lançar ataques militares diretos contra a própria Venezuela, isso será mais uma guerra de agressão ilegal dos EUA contra um país que não atacou os Estados Unidos. Isso é importante porque esse tipo de guerra foi condenado como crime de guerra em Nuremberg. Além disso, seria uma guerra ilegal sob o sistema constitucional americano, dado que a Constituição dos EUA exige uma declaração de guerra do Congresso antes que o presidente possa travar uma guerra contra outro estado-nação.
E quanto à tão alardeada “guerra às drogas” dos Estados Unidos? O governo americano não teria a autoridade legal para impor sua política antidrogas a outras nações?
De modo algum! Cada país do mundo tem o direito soberano de adotar sua própria política de drogas. Nenhuma nação é legalmente obrigada a seguir as determinações do governo dos EUA sobre proibição de drogas. Se a Venezuela decidisse legalizar as drogas, isso seria uma prerrogativa soberana do país. Da mesma forma, se o governo venezuelano tiver leis antidrogas, mas optar por não aplicá-las, isso também é sua prerrogativa. E se o governo venezuelano decidisse nada fazer a respeito dos cartéis e gangues de drogas que produzem, vendem e exportam entorpecentes, isso igualmente estaria dentro de seu direito soberano. Nenhum Estado nacional tem o dever legal de adotar o esquema de décadas do governo dos EUA de proibição das drogas.
Assim, o uso que o presidente Trump, o Pentágono e a CIA fazem de seu esquema corrupto, mortal e destrutivo da “guerra às drogas” para atacar e bombardear a Venezuela será tão ilegítimo quanto o uso fraudulento de “armas de destruição em massa” por Bush, o Pentágono e a CIA para justificar o ataque ao Iraque. Nenhum estado-nação possui autoridade legítima para atacar outro estado soberano — e matar pessoas inocentes nesse processo — sob o pretexto de impor sua própria política moralmente falida de proibição das drogas.
Como ressaltei em julho de 2024 — antes de Trump dar os primeiros passos para fabricar a crise venezuelana —, os americanos fariam bem em se preparar para mais uma guerra no exterior, usada como meio de conter a rebelião do movimento Maga em torno dos arquivos de Jeffrey Epstein. Se esse for, de fato, o motivo pelo qual Trump criou essa crise, sua estratégia funcionou brilhantemente: empolgados com a perspectiva de uma guerra de mudança de regime na Venezuela, os apoiadores do Maga esqueceram sua rebelião sobre Epstein, e, na prática, essa rebelião acabou. Os arquivos de Epstein permanecerão em segredo.
E não se engane: se Trump usar a guerra às drogas como pretexto para lançar uma guerra de mudança de regime contra a Venezuela, os Estados Unidos mergulharão ainda mais fundo no autoritarismo. Mas, é claro, há quem chame isso de “tornar a América grande novamente”.
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Por Jacob Hornberger
